Maria: Mãe da Igreja, Mãe da Unidade

“Para que todos sejam um” (cf. Jo 17,21), assim escutamos a exortação de Jesus no Evangelho, o desejo mais íntimo do coração de Deus, o apelo divino à unidade dos fiéis, e de modo mais amplo, à unidade de todos os homens. Nos últimos dias temos visto de modo mais intenso, os conflitos que têm se dado em Israel, especificamente na cidade de Jerusalém, dita por alguns como uma cidade de pólvora, e pela bela tradição judaico-cristã conhecida pelo que significa o seu nome, a Cidade da Paz. Por essas ruas onde hoje presenciamos conflito, guerra e morte, passou o Cristo do qual ouvimos a exortação evangélica à unidade e à paz, frutos do seu Espírito.

Esta semana, estamos às portas da celebração da solenidade de Pentecostes, festa de origem judaica, que para nós cristãos marca a manifestação da Igreja e o dom da efusão do Espírito Santo, inaugurando, como se diz na teologia, o tempo do Espírito, o tempo da Igreja na história da salvação; o mesmo Espírito que é princípio de unidade e de paz (cf. Ef 4,3). Vivemos também um mês mariano, e poderíamos nos questionar, que papel exerce a Santíssima Virgem para o estabelecimento da paz entre os homens? Pelas mesmas ruas onde hoje se enfrentam os povos em Jerusalém, andou também Maria, por aquelas vielas, certamente ela caminhava, desde de sua infância – já que a tradição diz que Maria era hierosolimitana – e depois na peregrinação anual da Páscoa judaica; esta mesma Maria foi tomada para ser desposada em sua alma pelo Divino Espírito, portanto, quem melhor poderia ser auxílio divino para a unidade dos homens depois de Nosso Senhor Jesus Cristo, senão a própria Virgem Maria, pois se esse Espírito age em nós para que sejam promotores da unidade e da paz, muito mais em sua Esposa Imaculada há de agir, para estabelecer a paz entre os homens.

Em Pentecostes, como nos recorda o Cardeal Cantalamessa[1], saímos da confusão de Babel, e a situação se inverte pela ação do Espírito Santo para o entendimento e a harmonia, há neste contexto uma figura proeminente, Maria[2]; os Atos dos Apóstolos nos recordam que “com eles, estava Maria, a mãe de Jesus” (cf. At 1,14), tal qual na Anunciação, em Pentecostes, o Espírito Santo se dirige à Maria com sua presença, e faz dela e da Igreja nascente reunidos numa só alma e num só coração (cf. At 4,32), testemunhas proféticas da ação iluminadora de Deus[3].

O Papa Francisco, em 2018, decretou a celebração da memória de Maria, Mãe da Igreja, a ser celebrada na segunda-feira após Pentecostes, como sinal dessa ação pneumatológica em Maria para a vida da Igreja nascente, manifestando este papel de promotora da unidade daqueles que se dispersaram após a morte e ressurreição do Senhor, para que permanecessem na fé de Cristo. Este título de Mater Eccclesiae (Mãe da Igreja), já fora aludido desde o século IV, por Santo Agostinho, e também o encontramos nos textos litúrgicos do século XIII e XIV, e publicamente proclamado no magistério de Paulo VI, indicando Maria como esse ícone da unidade da Igreja, como pontuou certa vez João Paulo II: “Maria abraça, com a sua nova maternidade no Espírito, todos e cada um na Igreja; e abraça também todos e cada um mediante a Igreja” (cf. RM, 47).

Maria também pode ser indicada de modo mais amplo Mater Unitatis (Mãe da Unidade), e é também Santo Agostinho o primeiro a apontar esta perspectiva mariológica, certamente o sentido desta unidade em Maria, ganha conotação mais ampla no contexto atual, porque evoca Maria como este instrumento de unidade de todo o gênero humano, não só dos cristãos, mas também dos não-cristãos. O teólogo Manfred Hauke recorda que “o ‘sim’ de Maria na Encarnação e o seu consentimento à oferta de Cristo na cruz participam da fundação para todos os povos”[4], portanto, Maria é este instrumento discreto de Deus para as nações, raças e línguas, ela é de certo modo um ponto de interseção espiritual e cultural, que contribui na operação da unidade do Espírito.

Que pela delicadeza e doçura materna de Maria, possam os filhos da Igreja encontrar os meios para a unidade e comunhão dos corações, e caminhem os povos ao olhar para a candura e constância da Virgem, para a concórdia e a paz; que as graças do Cenáculo possam vir sobre todo o gênero humano pelas generosas mãos de Maria, tornando-nos um como o Pai e o Filho são um (cf. Jo 17,21), e este novo Pentecostes nos ordena para a verdade unidade e paz, que são frutos do Espírito.

Maria, Mãe da Igreja, rogai por nós!

Maria, Mãe da Unidade, rogai por nós!


[1] CANTALAMESSA, Raniero (Cardeal). Vem, Espírito Criador! Meditações sobre o Veni Creator. Canção Nova: Cachoeira Paulista, 2014, p.359.
[2] LG, 54
[3] HAUKE, Manfred. Introdução à Mariologia. Ecclesiae: Campinas, 2021, p. 65.
[4] Idem. p. 309.


Erick Ramon de Araújo Bezerra
Seminarista da Arquidiocese de Belém
Bacharel em Filosofia
Candidato ao Diaconato na Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Outeiro)

Receba as últimas notícias