Padre Everson Vianna Corrêa
Pároco da Paróquia São Francisco de Assis – Icoaraci
Há frases que passam despercebidas todos os dias, coladas em muros, portões e vitrines, repetidas como parte da paisagem urbana. Promessas de futuro, convites para entrar, anúncios de oportunidade. Mas, às vezes, a realidade coloca diante dessas palavras um contraste tão forte que elas deixam de ser propaganda e se tornam pergunta.
“Garanta sua vaga.” Logo abaixo, um homem dorme na calçada. A cidade continua funcionando: carros passam, portas se abrem, pessoas planejam a vida. Cursos começam, matrículas se encerram, agendas são organizadas. Tudo segue a lógica da ocupação — ocupar espaço, tempo, profissão, reconhecimento. Cada um tenta garantir um lugar no mundo. Porém, ali, diante da parede, está alguém que não disputa posição alguma; disputa apenas o direito de existir sem ser removido.
A Escritura revela que Deus nunca começa perguntando ao homem o que ele conquistou, mas onde ele está. No Gênesis, o primeiro chamado divino é ’ayyekkāh (אַיֶּכָּה — onde estás?). Não é uma pergunta geográfica; é relacional. O ser humano pode estar rodeado de estruturas e, ainda assim, não ter lugar. A ausência mais profunda não é de casa; é de pertença.
O drama do irmão caído à margem não é apenas social; é também espiritual. Ele se torna invisível porque a lógica do mundo valoriza quem produz, quem responde, quem progride. Mas Cristo se identifica justamente com quem não consegue manter o ritmo: “Tive fome… estava nu… era estrangeiro”. A tradição sempre entendeu esse texto não como metáfora moral, mas como presença real. Santo João Crisóstomo advertia: “Se não reconheces Cristo no pobre à porta da igreja, não o reconhecerás no altar”.
A Campanha da Fraternidade recorda, todos os anos, que a conversão não começa na ideia, mas no olhar. A palavra grega splagchnizomai (σπλαγχνίζομαι: compadecer-se nas entranhas) descreve a reação de Jesus diante da dor humana. Não é pena distante; é comoção que desloca. O samaritano não resolveu a pobreza do mundo; resolveu o abandono de um homem.
A inscrição diz: garanta sua vaga. O Evangelho diria: garanta seu irmão. Porque, no fim, ninguém será perguntado sobre quantos lugares conquistou, mas sobre quantos ofereceu. O Reino não é uma fila de mérito; é uma mesa preparada. E nela sempre existe um lugar reservado para quem nunca teve lugar algum.
Talvez a Quaresma seja exatamente isso: permitir que Deus nos retire da posição confortável de quem passa e nos coloque na responsabilidade de quem vê. Afinal, o verdadeiro risco não é não ter espaço na sociedade; é não ter espaço no coração. E, quando o coração se fecha, até as portas abertas se tornam muros. Agora, resta uma escolha silenciosa: continuar andando… ou aprender a parar.
