A experiência com o Ressuscitado nos faz ter corações ardentes e pés a caminho

Caríssimos leitores, neste bonito tempo pascal já estamos no Terceiro Domingo da Páscoa e isso nos convida a mergulhar na experiência viva dos discípulos que encontraram o Cristo ressuscitado e tiveram suas vidas transformadas. A liturgia deste dia, iluminada especialmente pelo relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), nos apresenta um caminho espiritual profundo: passar da tristeza à esperança, da estagnação ao movimento, da frieza ao ardor missionário.

Os discípulos caminhavam desanimados, com o coração pesado e os olhos incapazes de reconhecer Jesus. Essa cena reflete muitas vezes a realidade de nossa própria vida: seguimos nossos caminhos carregando frustrações, dúvidas e medos. No entanto, o Ressuscitado se aproxima, caminha conosco e nos interpela: “O que vocês estão conversando pelo caminho?” Deus nunca se impõe, mas se faz presença discreta e paciente, desejando reacender em nós a chama da fé.

O ponto central dessa experiência está na transformação interior: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” O coração ardente é fruto do encontro com a Palavra viva, que ilumina, consola e reorienta a existência. Quando nos abrimos à escuta sincera das Escrituras, permitimos que Deus reordene nossos pensamentos e cure nossas feridas. A Palavra não apenas informa, mas forma discípulos, reacendendo o sentido da vida e da missão.

Contudo, o encontro com Cristo não termina no aquecimento interior. Ele impulsiona ao movimento. Os mesmos discípulos que estavam cansados e desiludidos levantam-se imediatamente e retornam à Jerusalém. Aqui nasce o segundo eixo do tema: “pés a caminho”. Quem experimenta o Ressuscitado não pode permanecer parado. A fé verdadeira gera dinamismo, compromisso e testemunho.

Esse chamado ressoa também na Primeira Leitura (At 2,14.22-33), quando Pedro proclama com coragem a ressurreição de Jesus, convidando ao primeiro anúncio e à confiança em Deus. E ainda na Segunda Leitura (1Pd 1,17-21), somos exortados a viver pela fé que provém da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, o coração ardente se traduz em vida coerente e missionária, porque sabemos em quem pusemos nossa esperança.

Caros leitores, hoje somos convidados a revisar nossa caminhada: nosso coração ainda arde ao ouvir a Palavra de Deus? Ou esfria diante das dificuldades? Nossos pés estão a caminho, levando esperança aos outros, ou permanecem paralisados pelo comodismo e pelo medo?

Ter “coração ardente e pés a caminho” é viver a espiritualidade pascal em sua plenitude. É permitir que Cristo Ressuscitado transforme nossa tristeza em alegria, e nossa inércia em missão. É reconhecer que a fé não é um sentimento isolado, mas uma experiência que nos envia ao encontro do outro.

Um outro ponto que nos chama a atenção nesse relato evangélico, são os movimentos que Jesus permite aos discípulos fazerem, como bem destacou Ir. Zuleica Aparecida Silvano, ao falar num de seus artigos sobre a mesma temática:

 “É importante salientar três movimentos de Deus: o descer (na encarnação de Jesus); o ir ao encontro (o peregrino no caminho) e o caminhar com a humanidade em sua travessia (o percurso a Emaús). Jesus inverte o caminho dos discípulos e os faz voltar a Jerusalém, onde tem início a missão que se estenderá até os confins do mundo. A conversa desenvolve um diálogo que exige o movimento para fora. O encontro das vulnerabilidades faz possível o diálogo profundo, autêntico e capaz de gerar ‘novidade’”. A partir desses movimentos podemos perceber que quando confiamos verdadeiramente na força e presença do ressuscitado somos capazes de ressignificar os caminhos percorridos e renovar o vigor pela missão.

Que, neste tempo pascal, possamos renovar nosso encontro com o Senhor na Palavra e na Eucaristia, deixando que Ele reacenda em nós o fogo do amor e nos impulsione a caminhar, como discípulos-missionários, anunciando com a vida (mesmo nas nossas realidades difíceis e desafiadoras) que Ele está vivo e caminha conosco! Recordemos, pois, que a experiência com o Ressuscitado nos faz ter corações ardentes e pés a caminho!

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará

Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

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