Há histórias que não foram escritas para emocionar, mas para desmascarar critérios. Elas atravessam os séculos como um espelho incômodo, obrigando a humanidade a encarar a própria lógica: o que consideramos uma vida digna? Quem merece existir? Que tipo de “perfeição” estamos dispostos a aceitar?
No século XI, nasceu Ermanno de Reichenau, conhecido pela crueldade do apelido que recebeu: il contratto, o rijo, o deformado. Seu corpo carregava limitações severas; sua existência, aos olhos do mundo, parecia um erro — a ponto de seu próprio pai cogitar eliminá-lo. A misericórdia de uma mãe, quase sempre ela, mudou o rumo da história ao entregar o menino aos monges beneditinos de Reichenau.
O que parecia um fardo inútil revelou-se um dom escondido. Ermanno tornou-se um dos maiores intelectos de seu tempo: astrônomo, matemático, músico, poliglota, inventor e teólogo. Foi chamado de Miraculum saeculi, “o prodígio do século”. Mais do que isso, foi ele quem colocou nos lábios da Igreja palavras que atravessariam mil anos: Salve Regina e Alma Redemptoris Mater. Um homem que, segundo critérios modernos, talvez jamais tivesse nascido ensinou gerações inteiras a rezar a misericórdia.
A Escritura já advertia: “O que é fraco aos olhos do mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes” (1Cor 1,27). A lógica divina nunca coincidiu com a lógica da utilidade.
Séculos depois, outra história ecoa a mesma pergunta. A mãe de Andrea Bocelli, aconselhada por médicos a interromper a gravidez por causa da deficiência visual do filho, respondeu com uma frase simples e definitiva: “Eu o recebo como Deus o dá”. O mundo ganhou uma das vozes mais belas da história da música. Mas o ponto não é o talento. É a vida. Porque nem toda criança poupada se tornará famosa — e nem por isso vale menos.
O Catecismo da Igreja Católica afirma sem ambiguidades: “A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta desde o momento da concepção” (CIC, 2270). Não como princípio abstrato, mas como consequência direta da fé num Deus que se faz pequeno, vulnerável, dependente do ventre de uma mulher.
O cardeal Christoph Schönborn recorda que, na tradição bíblica, a misericórdia de Deus está ligada às entranhas maternas (רַחֲמִים — rahamim), lugar onde a vida é acolhida antes de ser julgada. Quando esse espaço se transforma em território de descarte, algo essencial se rompe — não apenas biologicamente, mas espiritualmente. A pergunta que ele lançou permanece atual: “Isso é misericórdia?”
A Igreja nunca proclamou a misericórdia como indulgência seletiva. Misericórdia não é eliminar o frágil para poupar o forte; é suportar, acolher, proteger, mesmo quando custa. “Antes de te formar no ventre, eu te conhecia” (Jr 1,5) não é poesia devocional; é uma afirmação sobre o valor incondicional de cada vida.
Talvez a inquietação final seja inevitável: quantas orações nunca foram compostas, quantas vozes nunca cantaram, quantos santos nunca nasceram porque alguém decidiu que não valiam o risco? Se Ermanno tivesse sido descartado, a Igreja rezaria diferente. Se Bocelli não tivesse nascido, o mundo ouviria menos beleza. Mas e os milhões que não terão nome, nem palco, nem reconhecimento?
A misericórdia de Deus continua a agir — mas ela passa, quase sempre, pelas mãos humanas. Quando essas mãos escolhem eliminar em vez de acolher, o mundo empobrece. Não apenas em talentos, mas em humanidade.
Talvez por isso nosso tempo seja tão carente de misericórdia: porque aprendeu cedo demais a silenciar vidas antes que elas possam falar.

