Ser templo vivo de Cristo

Caros leitores, na alegria deste Domingo da Páscoa do Senhor vamos refletir sobre o ser templo vivo de Cristo. Nesta oportunidade, conto com a colaboração do seminarista Eduardo Augusto Rosa de Matos.

Podemos constatar quanta dedicação houve nesses dias para a organização de nossas casas, capelas e igrejas em vista da Semana Santa, tendo em vista o dia por excelência, “o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 117/118,24), o dia da passagem da terra da escravidão para a terra da verdadeira liberdade, o dia da Páscoa de Jesus, o Cordeiro Pascal (1Cor 5,7).

Todos fomos convidados a retirar o fermento velho da maldade e da perversidade de que nos fala São Paulo (1Cor 5,7), a fim de lançá-lo fora de nós, de nossa vida e de nossas comunidades – como a faxina que fizemos no interior de nossas igrejas –, principalmente por meio do sacramento da reconciliação, de modo a acolher os efeitos da graça redentora da Cruz e da Ressurreição de Jesus no hoje e no chão de nossas vidas.

Na Sequência de Páscoa, há uma provocadora questão: “Responde, pois, ó Maria: no teu caminho, o que havia?” Podemos também nos perguntar: quais são os sinais da presença de Jesus em nós, em nosso caminho? O que mudou em nós após a travessia dos quarenta dias do deserto (Quaresma)? Percebemos tais sinais, tais mudanças? Nós as testemunhamos? Ou estamos fixados na ausência do corpo morto de Jesus?

A busca de Maria Madalena, Pedro e João no Evangelho deste Domingo de Páscoa (Jo 20,1-9) nos remete a outra busca: a nossa busca pela presença viva de Deus, pelos sinais concretos de sua graça em nós, por sua eficácia redentora em nossas vidas, no templo de nossos corações.

Voltemos assim nosso olhar para três personagens do Evangelho, a fim de aprendermos com eles a reconhecer Cristo vivo entre nós e em nós. Em primeiro lugar, fixemos nossa atenção no discípulo amado, o apóstolo João. Aquele que antes queria o primeiro lugar junto ao trono de Deus (Mc 10,35-45), passa agora a dar lugar: cede a vez, espera o mais velho, Simão Pedro, e só depois entra no túmulo. Esse gesto externo parece remeter às raízes internas do “viu e acreditou” (Jo 20,8).

João passou a reconhecer o modo novo da presença de Jesus. Ele abandonou o desejo de grandeza, de sentir-se melhor que os outros, e acolheu, com simplicidade e paciência, aquele que vinha mais lento, sem julgar nem se considerar superior, mesmo tendo permanecido fiel até a cruz. João cedeu humildemente, tocado pela força da Ressurreição, e percebe a presença de Cristo no templo do próprio coração, pela fé e pelo amor.

A segunda personagem é Simão Pedro, que, outrora, havia negado o Mestre três vezes, inclusive diante de uma criada (Jo 18,15-18), figura de pouco valor na sociedade da época. No entanto, na liturgia deste Domingo de Páscoa, nos Atos dos Apóstolos, o mesmo Pedro passa a testemunhar Jesus de forma destemida diante de uma multidão.

Tomado pela força do Espírito Santo, ele proclama: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados” (At 10,43). Pedro testemunha aquilo que viveu: foi perdoado de sua negação e de suas limitações, a ponto de conviver novamente com Jesus ressuscitado. Ele abandona a autocondenação, acolhe a misericórdia e se torna sinal vivo do perdão de Deus.

Por fim, a terceira personagem é Maria Madalena, que, no pontificado do Papa Francisco, foi oficialmente reconhecida como “Apóstola dos Apóstolos”, por ter sido a primeira a anunciar a ressurreição de Jesus. Ela fez a passagem da escravidão para a liberdade: antes dominada por forças que a oprimiam, agora está livre e pode testemunhar.

Maria Madalena tem sua voz reconhecida. Isso acontece porque, na Ressurreição de Jesus, não há distinção: todos são chamados à mesma dignidade. Transformada, ela anuncia com convicção: “Vi o Senhor!”. Sua vida ganha novo sentido, preenchida pela liberdade, pela verdade e pela graça.

Assim também nós, templos vivos de Cristo, somos chamados a perceber, em nossa vida, história e missão, os sinais de sua presença ressuscitada. Isso significa viver a Páscoa como passagem: do túmulo vazio à presença viva de Cristo em nós; do orgulho à humildade; do medo ao testemunho; do pecado à liberdade; das trevas à luz; da dor à alegria. Como templos vivos de Cristo, podemos então proclamar com alegria: Jesus está vivo!

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará

Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

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