Caros leitores, este é o domingo que inicia o Mês Missionário, por isso somos convidados a refletir sobre a missão contínua a que somos chamados. Ajuda-me nesta reflexão Sylvia Calandrini, licenciada em Letras e professora do Instituto Vicentino Catarina Labouré.
Outubro tem, para a Igreja, uma força missionária singular. No Pará, essa vocação ganha cores e rostos concretos: enquanto a Igreja vive o Mês Missionário, somos envolvidos também pela experiência de fé do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. A Campanha Missionária nos convida: “Um em Cristo, unidos na missão”, sob a luz da oração de Jesus “para que o mundo creia” (Jo 17,21). E o Círio nos apresenta Maria como “missionária que nos dá Jesus”. Há aqui mais que uma coincidência temática: quem acolhe Cristo torna-se, necessariamente, portador de sua presença.
No Evangelho deste 27º Domingo do Tempo Comum (Mt 21,33-43), Jesus conta a parábola dos vinhateiros a quem o proprietário confia a vinha. Eles, porém, agem como se fossem donos: apoderam-se dos frutos e rejeitam os enviados do senhor da vinha. A Palavra nos pergunta: o que temos feito com aquilo que Deus nos confiou? A fé, os dons, o tempo, os bens e a profissão não são propriedades absolutas; são vinha confiada aos nossos cuidados. O discípulo missionário não vive para possuir os frutos, mas para fazê-los chegar a quem deles necessita. Uma fé que não produz justiça, misericórdia e cuidado pode conservar a aparência religiosa enquanto esquece o Senhor da vinha.
A missão torna-se concreta. O anúncio cristão não pode ser indiferente à fome, à falta de moradia, à violência, ao abandono, à destruição da criação ou às tantas formas de exclusão. A evangelização não substitui a responsabilidade social; dá-lhe uma raiz ainda mais profunda: cada pessoa é amada por Deus. Como recorda a Evangelii Gaudium, pelo Batismo cada membro do povo de Deus tornou-se “discípulo missionário” (n. 120). Portanto, missão não é tarefa reservada somente aos que atravessam oceanos, embora a missão ad gentes e ad extra continue indispensável. Há fronteiras geográficas e também humanas: a solidão do vizinho, o conflito dentro de casa, o colega excluído, a criança invisibilizada, o pobre diante de quem aprendemos a desviar o olhar.
Neste 4 de outubro, São Francisco de Assis nos oferece uma chave preciosa. Ao falar dos irmãos enviados entre os sarracenos e outros não cristãos, Francisco propõe uma presença marcada pela humildade e pelo testemunho, sem disputas, e, quando aprouver a Deus, pelo anúncio explícito da Palavra. É uma lição necessária: missão não é conquista, imposição ou superioridade; é testemunho, encontro e serviço. Francisco seguiu o Cristo pobre e crucificado de modo que o Evangelho se tornasse visível em sua relação com as pessoas, os pobres e a criação. O missionário não leva a si mesmo: leva Outro.
Esse é um desafio de nosso tempo. Podemos falar muito de Cristo e, ainda assim, impedir que Ele faça morada em nossos gestos. Podemos participar de procissões, rezar novenas, vestir símbolos religiosos e permanecer indiferentes à pessoa que caminha ao nosso lado. A piedade popular autêntica não nos fecha em nós mesmos; põe-nos a caminho.
“Um em Cristo, unidos na missão” significa, então, mais que realizar atividades em conjunto. Nossa unidade nasce de uma mesma morada: Cristo em nós e nós n’Ele. E dessa comunhão nasce o envio. Quanto mais Cristo habita o coração, menos espaço existe para o egoísmo e a indiferença. Tornamo-nos disponíveis para produzir os frutos da vinha e reparti-los.
Cada encontro pode tornar-se uma pequena experiência missionária quando deixamos de perguntar apenas “o que posso receber?” e passamos a perguntar “o que posso oferecer?”. Assim, a presença cristã se torna discreta, mas transformadora.
Uma Igreja missionária não espera que todos venham até ela; aprende a sair, aproximar-se, escutar e caminhar com as pessoas, especialmente com aquelas que vivem alguma forma de fragilidade. Ser missionário é reconhecer que Cristo já nos precede nos caminhos do mundo e que nossa tarefa é encontrá-Lo, servi-Lo e anunciá-Lo com humildade. Quando nos colocamos a serviço, a missão deixa de ser apenas uma palavra bonita e passa a ser um modo concreto de viver a fé.
Neste outubro missionário e nazareno, podemos pedir a Maria uma graça: que ela nos ensine a receber Jesus e a não retê-lo. Como ela, sejamos morada que se transforma em caminho; como Francisco, testemunho que se transforma em serviço. Porque ser missionário é isto: deixar o Verbo encarnar-se novamente em nossa existência, para que, por nossas palavras e escolhas, Cristo encontre morada entre todos os povos – e comece, primeiro, fazendo morada em nós.
Foto de destaque: criada com IA

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará
Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

