Quaresma: Tempo de Conversão e Compromisso Social

Caros leitores, no último dia 18 de fevereiro, Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo quaresmal. Com ele, a Igreja no Brasil nos convida a refletir sobre a Campanha da Fraternidade que, em 2026, traz como tema “Fraternidade e Moradia” e como lema: “Ele veio morar entre nós!” (Jo 1,14). Para esta reflexão semanal, conto com a colaboração de Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.

Neste 1º Domingo da Quaresma, a Igreja nos chama a olhar para dentro do coração e também para a realidade ao nosso redor. É tempo de conversão, de mudança de vida, de rever escolhas. A liturgia nos ajuda a compreender que o pecado desfigura o projeto de Deus, mas a graça restaura, reconstrói e devolve dignidade.

A reflexão ganha força diante do tema da Campanha da Fraternidade 2026. Falar de conversão é também falar de compromisso com a vida concreta das pessoas, especialmente daquelas que não têm uma moradia digna.

A primeira leitura, do livro do Gênesis (Gn 2,7-9; 3,1-7), apresenta Deus criando o ser humano com carinho: molda-o do pó da terra, sopra em suas narinas o sopro da vida e prepara um jardim para que ali viva com proteção, alimento e dignidade. Desde o início, o Senhor deseja que o ser humano tenha um lar.

Contudo, o texto também mostra a ruptura. A serpente engana, o homem e a mulher desobedecem, e o pecado entra na história. Surgem o medo, a vergonha, a desconfiança. Onde havia harmonia, nasce a divisão; onde havia confiança, instala-se o medo. O pecado sempre gera desordem.

O Salmo 50(51) ecoa como o grito de quem reconhece o erro: “Piedade, Senhor, tende piedade”. É a oração de quem deseja recomeçar. A Quaresma é precisamente esse tempo de pedir a Deus um coração novo e um espírito renovado.

Na segunda leitura (Rm 5,12-19), São Paulo ensina que, se pelo pecado de um só – Adão – o mal entrou no mundo, por um só homem – Jesus Cristo – veio a salvação. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Cristo não apenas perdoa: Ele reconstrói e abre um novo caminho de vida.

O Evangelho de Mateus (Mt 4,1-11) apresenta Jesus sendo tentado no deserto. Durante quarenta dias, Ele jejua e enfrenta o tentador. As três tentações continuam atuais.

A primeira é transformar pedra em pão: a tentação de reduzir a vida às necessidades materiais. Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. O pão é essencial, mas a vida humana precisa também de sentido, fé e valores.

A segunda tentação é lançar-se do alto do templo para provar a proteção divina: a busca por espetáculo, poder e reconhecimento. Jesus ensina que fé não é exibicionismo, mas confiança humilde.

A terceira tentação é receber todos os reinos do mundo em troca da adoração ao mal: o poder a qualquer preço. Jesus rejeita firmemente: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás”. Ele escolhe a fidelidade, mesmo que isso o conduza à cruz.

O que essas leituras têm a ver com a moradia? Tudo.

No Gênesis, Deus oferece um jardim, um espaço de vida. Hoje, milhões de pessoas vivem sem casa adequada, em áreas de risco ou nas ruas das grandes cidades. Falta saneamento, falta segurança, falta dignidade. A ausência de moradia digna revela que o projeto de Deus ainda não se realiza plenamente entre nós.

O pecado também se manifesta nas estruturas injustas que produzem desigualdade. Quando há concentração de terras e imóveis nas mãos de poucos e multidões sem teto, algo está errado. Quando famílias vivem em ambientes insalubres, estamos diante de uma ferida social.

Que esta Quaresma seja um verdadeiro tempo de revisão de vida. Que saibamos vencer as tentações da indiferença, do consumismo exagerado e da busca por vantagens pessoais. Que aprendamos a partilhar mais, a olhar com compaixão para quem sofre e a transformar a fé em ações concretas. Assim, a Quaresma não será apenas um tempo de palavras, mas de gestos concretos de fraternidade.

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará

Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

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