Caros leitores, neste domingo convido vocês a uma breve reflexão sobre a escolha de agir diante do sofrimento. Ajuda-me nesta ocasião Sylvia Calandrini, licenciada em Letras e professora do Instituto Vicentino Catarina Labouré.
Para início de conversa, recordamos que todos precisam de um lugar para morar. E esse espaço não deve ser apenas físico, mas também representar proteção, pertencimento e, sobretudo, a possibilidade de viver com dignidade. É nesse sentido que o lema da Campanha da Fraternidade de 2026 – “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) – nos conduz a uma reflexão profundamente teológica e radicalmente concreta.
Neste 5º Domingo da Quaresma, a ressurreição de Lázaro é narrada (Jo 11,1-45). A cena se passa na casa de Marta e Maria, amigas de Jesus. É significativo que esse grande sinal aconteça no contexto de uma casa e de uma amizade. Ali se revela um Cristo profundamente humano: Ele se emociona diante da dor das duas irmãs e partilha a experiência do luto. O texto chega a registrar uma das frases mais curtas e mais comoventes da Escritura: “Jesus chorou”.
O Filho de Deus não se mantém indiferente diante do sofrimento humano. Ao contrário, Ele entra na casa marcada pela dor e ali manifesta a força da vida. Quando ordena: “Lázaro, vem para fora!”, Jesus devolve àquela família não apenas um irmão, mas também a esperança. A casa, antes tomada pela tristeza, torna-se novamente espaço de vida.
Essa passagem nos ajuda a compreender algo fundamental: onde há acolhida e cuidado, Deus encontra morada. Por isso, a reflexão sobre a moradia não pode ser reduzida apenas à dimensão material, embora ela seja indispensável.
A Doutrina Social da Igreja recorda que a moradia digna faz parte do conjunto de condições necessárias para que a pessoa humana possa desenvolver plenamente a sua vida. O Catecismo da Igreja Católica afirma que o acesso aos bens necessários para viver com dignidade deve ser promovido pela sociedade e pelos governantes. Entre esses bens está, evidentemente, a habitação. Não se trata apenas de uma questão econômica, mas de uma exigência moral.
Esses ensinamentos não devem permanecer apenas como discursos retóricos; precisam interpelar a consciência cristã hoje. Se Deus quis morar entre nós, cada pessoa humana torna-se, de certo modo, uma porta pela qual Ele continua a entrar no mundo. O problema da moradia, portanto, não é apenas um tema para especialistas em políticas públicas; é também um apelo à conversão do coração.
A Campanha da Fraternidade de 2026 nos convida justamente a isso: olhar ao redor e perguntar de que modo podemos colaborar para que nossas cidades se tornem mais humanas. Às vezes, pensamos que as grandes transformações dependem apenas de decisões governamentais – e elas são realmente necessárias. Mas o Evangelho nos lembra que o Reino de Deus também começa em gestos simples: acolher, partilhar, visitar, escutar.
Uma comunidade cristã que se organiza para apoiar famílias em situação de vulnerabilidade já está construindo morada para Deus no mundo. Um grupo de vizinhos que se mobiliza para ajudar quem perdeu sua casa em uma enchente também testemunha o Evangelho. Uma paróquia que abre suas portas para iniciativas solidárias faz eco ao gesto de Cristo que entrou na casa de Marta e Maria.
O Evangelho de Lázaro traz ainda um detalhe significativo. Depois de chamar o amigo para fora do túmulo, Jesus diz aos que estão ao redor: “Desatai-o e deixai-o caminhar”. Ou seja, o milagre não dispensa a colaboração humana. Jesus devolve a vida, mas pede que a comunidade ajude a libertar aquele que estava preso pelas faixas funerárias.
Também hoje, diante das tantas “faixas” que aprisionam a dignidade humana – pobreza, exclusão, falta de moradia –, Cristo continua convidando seus discípulos a colaborar com a obra da vida. Cada gesto de solidariedade ajuda a desatar os nós da injustiça.
A Quaresma é tempo de conversão e de preparação para a Páscoa. Ao contemplarmos o Cristo que entra na casa do sofrimento humano para ali fazer florescer a vida, somos chamados a perguntar: que lugar estamos oferecendo para Deus habitar? Nosso coração, nossas famílias e nossas comunidades são espaços de acolhida ou de indiferença?

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará
Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.
