Era para ser uma viagem dos sonhos, mas estava virando um tormento. Tudo por causa do pão com queijo.
O cruzeiro marítimo era um sonho acalentado há muito tempo pela família. A família era, porém, numerosa, seus ganhos eram limitados, as passagens, custosas. Experiências anteriores bem-sucedidas, no entanto, fizeram a família decidir por perseguir esse cruzeiro não somente como um sonho inalcançável, mas como um projeto familiar que provaria que a união e a organização podiam superar os obstáculos. E assim foi. Dia a dia, semana após semana, todos se puseram a contribuir para a realização daquela viagem dos sonhos.
Finalmente, após esforços organizados e convergentes, as passagens foram compradas. Antes da partida, porém, nova reunião de família. O pai, como todo bom administrador de bens, ponderou a com mulher e os filhos que deveriam continuar economizando e que não poderiam se permitir gastos acima do orçamento durante o cruzeiro marítimo. O recente sucesso na realização de uma meta animava a todos. Foram unânimes também na decisão de conter as despesas, pois estavam conscientes de que a conta viria infalivelmente no final da viagem.
Decidiram não fazer as refeições no restaurante do navio, famoso pela sua cozinha internacional, comandada por um chef internacional premiado, cuja imagem ajudava na venda de pacotes turísticos da companhia de cruzeiros marítimos. Em vez de frequentar o restaurante a bordo, iriam levar a comida de casa. Levaram pão e queijo suficientes para a viagem.
Os dias se passaram entre paisagens maravilhosas e experiências surpreendentes. Era, de fato, um passeio de sonhos. O problema era a alimentação que foi se tornando um tormento. Ninguém suportava mais uma refeição tão ruim quanto enjoada. Foi nessa hora que a intervenção da mãe foi providencial; explicou ao pai o absurdo dessa economia de guerra, que não ficariam mais pobres por uma só refeição no restaurante do navio, que o cruzeiro se concluiria no dia seguinte e não poderiam levar de lembrança “o pão com queijo”. Ela tinha razão. Naquela noite a família finalmente teve uma refeição decente. Melhor. Foi um jantar inesquecível; jogou no baú do esquecimento os dias de renúncia, sacrifícios e contenção de gastos. Os pratos eram preparados e finalizados com esmero artístico, satisfaziam até os paladares mais exigentes e treinados dos gastrônomos, possuíam a simplicidade refinada que deliciava também os gostos menos sofisticados e acostumados ao luxo. Era uma combinação perfeita de ingredientes selecionados e trabalho competente de uma equipe chefiada por um artista da cozinha.
Ao final, todos estavam não só satisfeitos, mas também reconciliados. Pena que foi somente a última refeição! Imaginavam agora que poderiam ter feito mais vezes a mesma experiência que não era simplesmente gastronômica, mas também existencial e familiar.
O pai pediu a conta ao garçom que recebeu esse pedido com indiferença e um pouco de frieza. Uma vez que o pai insistia, o garçom chamou o encarregado do restaurante que veio imediatamente. Pediu para averiguar as passagens da família. Depois de um rápido exame, respondeu: “As passagens adquiridas são de primeira classe. Elas dão direito a todas a refeições do navio”.
Como toda estória, esta pode ser aplicada em vários âmbitos da vida. Uma das aplicações pode ser no modo como um cristão peregrina neste mundo.
Há cristãos que não frequentam a missa pois julgam que basta rezar em casa; que não precisam confessar seus pecados a um padre para se sentir perdoados por Deus; que fazem a experiência da proximidade de Deus e de sua proteção no dia-a-dia, o que o dispensa da obrigação dos sacramentos.
Evidentemente rezar a sós no seu quarto é não somente bom quanto necessário: é preciso orar sempre e nunca desanimar (Lc 18,1-8). É sumamente bom fazer o exame de consciência cotidianamente antes do repouso noturno (Sl 51/50). É uma graça experimentar a proximidade de Deus e se pôr conscientemente diante dele com reverência e temor religioso. Mas tudo isso é só o “pão com queijo”. Na missa nós não só falamos a Deus, mas Ele próprio vem ao nosso encontro e nos fala como a amigos e se entretém conosco para nos convidar à comunhão com Ele (Ex 33,11; Jo 15,14.15; Bar 3,38). Nós não só temos a possibilidade de sentir o perdão de Deus, mas podemos receber de Deus, por meio da Igreja, o sinal visível do perdão pela absolvição sacramental (Jo 20,23). Graça de Cristo é experimentar a companhia de Deus; graça sobre graça (Jo 1,16), porém, é receber Deus como hóspede da alma. Graça após graça é ter o Espírito Santo derramado em nossos corações (Rm 5,5) a fim de que um dia possamos morar para sempre em Deus e estar sempre com Cristo (Jo 14,2.3). Os batizados receberam de Deus passagens de primeira classe no navio da Igreja. É triste quando vivemos nesse navio como clandestinos por desconhecimento das riquezas que nos são postas diante dos olhos. Espero que não descubramos tarde demais os dons que nos são oferecidos na Igreja. De fato, não basta estar na Igreja somente com o corpo. É preciso estar nela com o coração (LG 14).

Dom Julio Endi Akamine, SAC
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
Dom Julio Endi é Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Belém do Pará, tem como lema episcopal “Bonum Facientes Infatigabiles – Não vos canseis de fazer o bem”. Natural de Garça (SP), ingressou em 1975 no Seminário da Sociedade do Apostolado Católico (Padres Palotinos) e foi ordenado presbítero em 1988. É mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Ao longo de sua trajetória pastoral, atuou como vigário paroquial, pároco, reitor de seminário e professor, além de ter exercido a função de Reitor Provincial da Província Palotina São Paulo Apóstolo. Foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo em 2011 e, posteriormente, Arcebispo de Sorocaba. Desde 6 de agosto de 2025, exerce o ministério de Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará.

