Hoje é um dia de memória. Recordamo-nos do dia de nossa ordenação. Não tem como ser diferente. É a própria liturgia que faz com que nosso pensamento se volte para aquele momento bendito de nossa ordenação. Por isso gostaria de convidar a todos que nesta homilia a se unam a esta oração para pedir o espírito sacerdotal.
Pai de bondade, eu Vos louvo e bendigo por terdes querido me preparar para o sacerdócio e Vos suplico o genuíno espírito do sacerdócio de Vosso Filho.
Na celebração de ordenação ouvi da Igreja: “Queira se aproximar o que vai ser ordenado presbítero”. Não fui eu que vos escolhi, mas vós a mim. A essa escolha respondi: “presente”, aqui estou! Respondi dessa forma porque a vossa escolha é fruto dos vossos imperscrutáveis caminhos de amor. Vós escolheis o fraco para o sobre-humano, o pequeno para o elevado, o pobre para o sublime, o nada para o tudo a fim de que ninguém possa se vangloriar. Fazei, Senhor, que eu me lembre da promessa de vosso Filho: “meu jugo é suave e meu peso, leve”. Que o esmagador peso da cruz de Cristo se torne, para mim, um ditoso peso de Deus.
Em seguida o bispo perguntou: “Ele é digno desse ministério?”. Meu Deus, quem é digno de Vós? Quem é digno diante de Vós? A baixeza pode ser digna ante a Vossa grandeza? Pode a pecaminosidade se sustentar diante do Três vezes Santo? Eis que me vi obrigado a rezar com Isaías: “Ai de mim, estou perdido. Sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros”. Sois Vós que me fazeis digno, Senhor, porque vosso chamado e vossa graça constituem minha dignidade. Por isso, depois da eleição, respondi com todos os presentes: “Graças a Deus”! Graças a Vós, ousei dizer sim.
Depois ouvi a homilia do Bispo. Reli hoje a alocução sugerida para a ordenação presbiteral. Senti-me tocado por algumas exortações feitas de maneira delicada, mas não menos firmes: “Transmite a todos a Palavra de Deus, que recebeste com alegria. Procura crer no que lês, ensinar o que crês, praticar o que ensinas. Seja a tua pregação alimento para o povo de Deus, seja tua vida estímulo para os fiéis. Toma consciência do que fazes e põe em prática o que celebras. Lembra-te, filho querido, que foste escolhido dentre os homens e colocado a serviço deles nas coisas de Deus. Procura não o que é teu, mas o que é de Cristo. Tem sempre diante dos olhos o exemplo do Bom Pastor que não veio para ser servido, mas para servir, para buscar o que estava perdido”.
Como resposta a essas exortações, diante da comunidade, fiz minhas promessas sacerdotais e, de joelhos, coloquei minhas mãos nas do bispo exprimindo que coloco minhas mãos nas Vossas mãos. Nas vossas mãos de Pai, coloquei as minhas mãos, não para serem seguradas, mas para que se abram. Nesse gesto me senti entregue a Vós para poder me entregar a todas as pessoas, especialmente aos mais pobres e necessitados. Com minhas mãos nas do bispo prometi obediência e fidelidade à Igreja. Com tremor prometi a obediência de vosso Filho: obediência dura e fiel, obediência na qual ele se esqueceu de sua própria vida, mergulhado no cumprimento de vossa vontade; obediência na qual vosso Filho se perdeu para ganhar a vida do mundo. Eis que hoje, de novo, coloco as minhas mãos nas vossas. Tomai-me as mãos e conduzi-me através das alegrias e provações, das honras e das humilhações, dos trabalhos e sofrimentos. Conduzi-me hoje e sempre; conduzi-me para o vosso Reino.
Em seguida, veio a prostração. Deitado, com o rosto no chão, me entreguei todo a Vós, consciente da minha impotência e fraqueza. Prostrado, tomei consciência que sou ordenado não porque mereço, mas porque Vós me chamastes. Lançado por terra, me uni aos habitantes do Céu, enquanto a assembleia cantava a Ladainha.
O bispo então me impôs as mãos em silêncio. E nesse silêncio – como na noite de natal ou da páscoa – vossa palavra poderosa e o fogo do vosso Espírito me recriou como sacerdote de vosso Filho. O que é decisivo acontece no silêncio. Nenhuma palavra foi proferida, nenhum canto acompanhou a imposição das mãos. No silêncio, vosso Espírito, dom divino da vossa graça, que não é espírito de hesitação, mas espírito de força, de amor e de discernimento, veio sobre mim. Vosso Espírito é o espírito que faz sacerdotes e testemunhas da vossa Palavra. Vosso Espírito é o espírito que me arranca de mim mesmo e me coloca dentro do sacrifício de Cristo, para que possa oferecer a minha vida com a oblação salvadora do vosso Filho.
Fiquei assombrado ao me recordar que as palavras de Isaías valem também para mim: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me consagrou pela unção; ele me enviou para levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, aos prisioneiros a liberdade e para proclamar um ano de graça da parte do Senhor”. E com não menos espanto posso repetir com vosso Filho: “hoje se cumpriu esta palavra da Escritura”.
O bispo impôs as mãos sobre mim e fui integrado nas fileiras de vossos servos que, há mais de dois milênios, atravessam os tempos e as terras para levar vosso nome para os povos. Fui imerso na corrente ininterrupta dos sacerdotes cuja expressão visível se materializa nos padres presentes, que também impuseram as mãos sobre mim. Cada um deles, em silêncio, rezou por mim. Cada um deles se lembrou da própria ordenação e como tem vivido depois dela. Eles sabem por experiência pessoal o que é preciso para o exercício fiel do ofício presbiteral; conhecem quais os riscos que devem ser enfrentados; reconhecem quanto é preciso se esforçar para chegar a ser um bom padre. Com a imposição das mãos deles tornei-me membro do presbitério e repousou sobre nós a responsabilidade. Senhor, que a nós do presbitério de Belém, nunca falte o Espírito dos Apóstolos e dos mártires, o Espírito fiel, forte, desinteressado, crente e empreendedor.
O bispo e os sacerdotes impuseram as mãos e as retiraram de minha cabeça. Mas as vossas mãos, ó Pai, permanecem sobre mim. Mãos do Todo-poderoso, mais brandas do que as mãos da mãe. Mãos que criaram tudo e tudo conservam. Mãos que muitas vezes pesam esmagadoramente sobre minha vida sacerdotal. Mãos que ferem e curam. Mãos do Deus vivo nas quais é terrível cair. Mãos nas quais entregarei meu espírito na hora da morte.
Depois desse poderoso silêncio da imposição das mãos, o bispo rezou a oração de ordenação. Essa oração recorda o que está na Primeira Carta a Timóteo, na qual é dito que o encarregado do ministério deve manter o bem que lhe foi confiado, deve fielmente passar adiante o tesouro que recebeu de Cristo. Eu me uni ao bispo em sua oração e pedi, através dele, que minha vida seja para sempre coerente com o serviço que recebi.
Depois disso o bispo me entregou os paramentos sacerdotais. À veste cândida do batismo foi acrescentada a veste sacerdotal. Suplico-vos, ó Pai, a graça de mantê-las, ambas, imaculadas até vosso tribunal. Sozinho diante de vós, estou nu, pois quem, ante a justiça incorruptível, é algo mais do que nada e pecado? Sois vós que me revestis com a túnica da justiça e da modéstia. Sois vós que me recobris, a mim, filho pródigo, com a túnica da graça. Além dela, vos peço a armadura da luz (cf. Rm 13,12), a cintura da verdade, a couraça da justiça, o calçado do zelo pela pregação do evangelho, o escudo da fé, o capacete da salvação e a espada do Espírito (cf. Ef 6,14-17). Assim revestido de vosso Filho, posso celebrar a eucaristia. Ser revestido de Cristo não consiste em vestir uma bela indumentária e com isso me diferenciar das outras pessoas, mas em crescer dentro dessa veste. Vestir os paramentos deve me lembrar que, no lava-pés, vosso Filho se despiu do manto, a roupa da glória, para vestir a roupa do escravo. Quando me encaminhar para a missa, vestirei a luminosa indumentária da ressurreição, mas depois da celebração me despojarei dela para sentir fisicamente, como Jesus, que devo servir as pessoas e lavar-lhes os pés.
Assim revestido, o bispo ungiu as minhas mãos, atando-as. Mãos que devem abençoar. Mãos que devem dispensar aos pecadores a paz de Deus. Mãos que devem se estender em prece pelo santo Povo de Deus. Mãos que devem sustentar o Corpo e o Sangue de Cristo. Enchei, ó Deus, minhas mãos com vossas bênçãos! Fazei que nunca estejam vazias e sejam sempre mãos santificadas! Que sejam ágeis em vosso serviço e amarradas para o mal! Que a cruz, sinal do vosso amor, arda em minhas mãos como as chagas do Crucificado! Que eu traga sempre os estigmas de Cristo em minhas mãos e em meu corpo. Que minhas mãos sejam sempre afetuosas, que toquem as pessoas para aproximá-las fisicamente de Vós! Que o vosso Espírito Santo distribua vossas graças através de minhas mãos vazias. Fazei que o reconhecimento de minha impotência e pobreza me lembre que nunca tenho a posse do que devo dar, que sempre de novo deverei receber o que devo comunicar aos outros.
A seguir o bispo confiou, pela primeira vez, a patena e o cálice às minhas mãos ungidas. Segurei a patena destinada a carregar o Corpo de Cristo. Peguei no cálice que contém o resgate pelos pecados do mundo. Tornei-me vosso sacerdote e celebrei a primeira missa na manhã do domingo. A minha vida foi arrastada para dentro da vossa morte e ressurreição. Fazei, ó Pai, que imite o que é feito na celebração. Esteja eu sempre pronto a me tornar pão que nutre as pessoas.
O bispo me deu então o abraço da paz. Essa saudação afetuosa expressou a minha aceitação na comunidade dos padres, o presbitério de Belém. Expressou concretamente o desejo de que me sinta emocionalmente aceito no círculo dos padres, de que me sinta em casa com eles. Recebi de cada um dos sacerdotes a saudação alegre e afetuosa. Cada um deles acrescentou alguma palavra que acolhi com atenção. Essa demonstração de amor e de afeto ficou marcada na minha memória e até hoje estende sua força benéfica e curadora.
Tendo sido assim por vós chamado, eleito, ungido, me tornei vosso sacerdote. Tudo o que se seguir há de ser apenas o efeito, o gastar-se desse chamado definitivo, mera execução desse único e definitivo mandato que há de dominar minha vida para sempre. Que eu seja encontrado vigilante e fiel no dia em que vireis me buscar.
Ó Pai misericordioso, desejo por fim, que a minha vida sacerdotal seja um entregar a própria carne a Jesus para que Ele possa vir ao mundo e transformá-lo. Renovo minhas promessas sacerdotais com a intenção de emprestar a minha carne para Jesus e para o povo.
Amém!
Foto: PASCOM | Catedral de Belém

Dom Julio Endi Akamine, SAC
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
Dom Julio Endi é Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Belém do Pará, tem como lema episcopal “Bonum Facientes Infatigabiles – Não vos canseis de fazer o bem”. Natural de Garça (SP), ingressou em 1975 no Seminário da Sociedade do Apostolado Católico (Padres Palotinos) e foi ordenado presbítero em 1988. É mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Ao longo de sua trajetória pastoral, atuou como vigário paroquial, pároco, reitor de seminário e professor, além de ter exercido a função de Reitor Provincial da Província Palotina São Paulo Apóstolo. Foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo em 2011 e, posteriormente, Arcebispo de Sorocaba. Desde 6 de agosto de 2025, exerce o ministério de Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará.
