Homem da boca fechada, homem do Interior

Padre Francisco Proske, SAC
Sacerdote palotino falecido em 2019

José é um daqueles seres que me dão medo, e não porque seja mau, perigoso ou de uma superioridade que esmaga, mas porque me parece misterioso, como o próprio Deus. José, o homem da boca fechada, o homem interior! Se pelo menos tivesse dito alguma coisa, uma palavra, poderíamos talvez adivinhar o fundo de sua alma, o senso da sua estranha vida, mas, ao contrário, não temos nada, nem no momento da tempestade, nem na ocasião do nascimento do Menino, tampouco em Jerusalém, quando avançava tranquilamente com as duas rolinhas, que serviriam para resgatar o Primogênito. Está simplesmente ali, parado, com os grandes olhos, doces e tranquilos, arregalados ou, talvez, iguais àqueles de sua querida esposa, a escutar o canto do velho Simeão, que está no limiar da morte, não tendo mais nenhuma razão de continuar, uma vez que viu finalmente a salvação prometida.  Nada disse no momento da fuga para o Egito, e nada em Nazaré, nem mesmo quando o Menino foi perdido. E no fim, mais uma vez, absolutamente nada: o desaparecimento total e definitivo, na ponta dos pés, como os tímidos que não querem que se lhes preste atenção, que se fale deles. Sim, tudo isto dá muito o que pensar!

As primeiras eras do cristianismo não buscaram fender esse silêncio. Somente Bernardo colocará uma tímida pergunta: Quis? Qualis? — “Quem é? Que homem é?” Nada mais. Será necessário esperar os tempos modernos para que alguns queiram saber alguma coisa, e até mesmo se abra uma cátedra de Josefologia (fiquem tranquilos, que isto é lá no Canadá!), e José, malgrado toda essa curiosidade, não diz nada, não dirá nada, não fará revelações e permanecerá o homem da boca fechada, o homem do interior. E por que me atrevo a falar dele? Por que não o deixar em seu silêncio, como deixo os peixes no mar? Depois de tudo, se isto lhe agrada, deixa falar e fazer, sem abrir a boca! Mas não é dele que quero falar, nem espero que me fale. Quero somente contemplar o seu silêncio, mergulhar nele, impregnar-me dele até o ponto de suplicar que não nos diga absolutamente nada, que não nos apareça nunca.

José da boca fechada é o homem do interior: faz parte daquela coorte de silenciosos para os quais falar é perder tempo, é sobretudo trair o Intraduzível, o Inefável. Naturalmente, quando essas pessoas dizem alguma coisa, arriscam fazer tremer o mundo, como Santo Tomás de Aquino, aquele “boi mudo da Sicília”, de quem troçavam os estudantes do mestre Alberto, na Universidade de Paris.

José da boca fechada é o homem que começa onde Jó terminou (Jó 42,3), quero dizer, nasce com a mão tapando a boca. Tem um senso enorme de Deus, do seu Ser sem medida e de sua loucura de Amor. Não o vejo pedindo explicações ao Inexplicável. A única vez na qual penetra o mundo da dúvida, quis unicamente desaparecer, sem nenhuma palavra, como: “Vai, amada minha!” O anjo de Deus simplesmente lhe deu um empurrão. Depois de tudo, José é um homem: “Não temas, pois, tomar Maria como esposa: o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo!” (Mt 1,20).

Depois do retorno do Egito, José desaparece completamente. Acreditem-me: esta morte, este “transitus” do beatíssimo José não tem nada de triste. Não houve nenhuma declaração, nada de “novissima verba” deste o momento da mesma forma como tampouco houve “priora verba”.

O seu silêncio é semelhante ao de Deus. É cheio da violência do Amor!

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