A fé pelas obras

Caros leitores, neste nosso encontro semanal vamos refletir sobre a fé pelas obras, lembrando que somos convidados a acolher uma fé que transforma o interior e orienta nossas escolhas, para que nossa vida seja reflexo do amor e da verdade de Deus no mundo. Nesta oportunidade conto com a colaboração do seminarista Eduardo Augusto Rosa de Matos.

A liturgia deste 6º Domingo do Tempo Comum, sobretudo o trecho do Evangelho de Mateus, parte do Sermão da Montanha (Mt 5–7), dirigida aos seus primeiros seguidores e também a nós hoje, provoca-nos a rever nossa fé e sua aplicação em nossa vida.

Perguntemo-nos: Será que o que acreditamos, no interior das nossas igrejas e assembleias dominicais, é o que temos vivido no cotidiano da nossa semana, em nossos lares, em nossas famílias, e nos espaços de trabalho e convivências sociais? Fomos capazes de dar sabor como sal à vida dos nossos irmãos? Iluminados pela luz de Cristo, tornamo-nos luz aos que se aproximaram de nós? A evidência inevitável de ser cristão, pelas nossas obras, à semelhança da casa construída no monte elevado, proporcionou a glorificação ao Pai que está no Céu, pelos que estavam ao nosso redor?

Na continuação dos ensinamentos de Jesus, uma repetida expressão, em suas variantes, ocorre no trecho destacado pela liturgia da Palavra (Mt 5,17-37): “Ouviste o que foi dito…, eu porém vos digo…”. Como Mestre, Jesus vive e depois prega, faz primeiro e em seguida ensina, e por isso é capaz de tornar-se referência, exemplo aos seus seguidores. A repetição da maioria “Mas, todos fazem!” ou “Sempre foi assim!” não garante a autorização para fazê-lo, é Jesus quem torna-se a chave de interpretação, o exemplo vivo, a efetivação concreta da vontade de Deus, o Pai, da lei no amor.

Nossas palavras, nossos sentimentos, nossas emoções, nossas opções de vida, nossas dimensões humana, afetiva, nossas relações pessoais, comunitárias e sociais, nossa interioridade e exterioridade precisam ser iluminadas pela palavra de Jesus: “Eu vos digo…!” Eis a novidade e a felicidade (bem-aventurados) que brotam nos que promovem a paz, desejando viver a fraternidade, olhando sempre para o próximo como “irmão” palavra repetida ao menos cinco vezes entre os v. 21-24, como membros que somos da mesma família humana, e por isso, são “temperados”, pacificadores no falar e no agir para não ferir de morte nossos irmãos e irmãs.

Os puros de coração, são inclusive os que não guardam rancor, mas buscam refletir a luz da reconciliação e do perdão mútuo, e também os que, mesmo em meio às dificuldades, anseiam honrar os compromissos assumidos, até na própria interioridade, nas suas intenções mais profundas, poderão ver o reflexo do amor fidelíssimo de Deus, que permanece fiel, mesmo quando somos infiéis. Ele que deu o sim a nós, não volta atrás, cumpre perfeitamente a máxima do seu amor.

Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la ao pleno cumprimento na sua entrega de amor. Ele, com seus gestos, palavras e ações cumpriu perfeitamente a lei, de modo a gerar vida com sua Vida, sabor, luz e solidez aos que O seguem. NEle, verdade e amor se encontram, justiça e paz se beijam (Sl 84/85,11), misericórdia e lei se entrelaçam, palavras e ações não se contradizem.

Queremos, portanto, durante toda essa semana, buscar refletir, visando nossa mudança de vida, a coerência entre o nosso crer e nosso agir, sobretudo, nestes dias próximos à Quaresma.

Será que estamos de fato permitindo que a palavra de Jesus encontre morada em nossa existência, espaço em nossas decisões, lugar em nossas escolhas, não só simpatias, mas vida, luz, solidez e sabor?

Renovemos nossa opção fundamental por Jesus. Que nosso sim, seja sim! E nosso não, não! Pois, Ele prometeu e cumpriu, sua decisão foi até o fim, até a cruz (1Cor 2,8). Peçamos a graça divina, como o fez o salmista: “Dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei, e de todo o coração a guardarei”. (Sl 118,34).

“Que a Virgem Maria, mulher da dócil escuta e da obediência jubilosa, nos ajude a aproximar-nos cada vez mais do Evangelho, para sermos cristãos não ‘de fachada’, mas de substância! E isto é possível com a graça do Espírito Santo, que nos permite fazer tudo com amor, e assim realizar plenamente a vontade de Deus”. (Papa Francisco, 12/02/2017).

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará

Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

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