É possível conciliar ciência e fé?

“Ciência e religião não estão em contradição, mas têm necessidade uma da outra para completar-se na mente do homem que pensa seriamente” (Max Planck). A razão e a fé são distintas, mas não se separam: a ciência se dedica à cena do ser, ao fenômeno, aos dados e aos fatos, ao “como”; a religião se consagra ao “fundamento”, ao sentido último do ser, ao “por quê”.

Quem crê pensa, e quem pensa pode crer. Para constatar esse fato, basta prestar atenção ao modo como em nossa vida cotidiana conhecemos mais por fé do que por evidência e demonstração. As nossas convicções mais firmes, na realidade, não são baseadas em demonstrações. Por exemplo: a segurança com que o filho, que volta depois de uma longa ausência, reconhece os pais na rodoviária, a certeza com que, num matrimônio bem-sucedido, um cônjuge refuta uma calúnia contra o outro cônjuge, não são precedidas de argumentações, nem implicam dúvidas.

Tal reconhecimento imediato e intuitivo, embora não sendo fruto de um raciocínio explícito, pode ser explicado e justificado por meio de um raciocínio. Um perito, que, ao primeiro olhar, reconhece numa pintura a obra de um grande mestre, pode em seguida apontar os critérios que demonstram a validez da atribuição: se não for capaz disto, sua intuição se tornará suspeita.

A razão ajuda a crer melhor, e é uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e para comunicar o seu conteúdo de maneira razoável, inteligível e dialogal aos outros. Assim o fiel cristão pode refletirsobre a certeza da própria fé e pode prestar contas de sua razoabilidade. Com efeito, a fé deve apresentar-se como um ato racional. Se assim não fosse, o cristão não poderia ser convidado a prestar contas da esperança que está nele (cf. 1Pd 3,15). A verdade revelada por mais sobrenatural que seja nunca é irracional ou absurda no senso forte.

A fé não é a conclusão de uma pesquisa científica. Se a fé fosse fruto de uma demonstração, já não mais seria uma adesão livre e, portanto, não seria culto a Deus. Por outro lado, nenhuma demonstração científica pode conduzir àquela firmeza que é peculiar da fé: quem crê está pronto a dar a vida pela sua fé.

O próprio ato de crer consiste exatamente em dar o assentimento refletindo. De fato, quem crê pensa, e crendo pensa e pensando crê. A fé se não é pensada não é nada. Se se tira o assentimento, se elimina a fé, porque sem o assentimento não se dá a fé (Santo Agostino, PL 35,1631.178). Outro adágio de Santo Agostinho é muito apropriado: “creio para compreender, e compreendo para melhor crer”. A fé se volta para si mesma para buscar a inteligência do próprio conteúdo.

Nesse sentido, a fé não paralisa a razão, antes a impulsiona a penetrar mais profundamente no mistério revelado para que a fé adira ainda mais fortemente. A busca da inteligência daquilo que se crê não é motivada por fatores alheios à própria fé; é pela sua própria natureza que a fé busca compreender, aprofundar e transmitir o seu conteúdo. É a própria fé que exige, portanto, a responsabilidade de um estudo constante dos seus conteúdos, de um crescimento permanente e de um cultivo cuidadoso na vida de fé.

O testemunho cristão, em nosso tempo, precisa mais do que nunca se motivar, bebendo das fontes da reflexão. Precisa, sobretudo, recuperar o porquê de valer a pena acreditar. Em outras palavras: é preciso pensar a fé. O não pensar a fé pode levar facilmente as pessoas a estranhar-se da fé, a não a acolher em sua dupla valência de dom e de livre aceitação, de dom e responsabilidade.

A fé não age como um elemento extrínseco ou exógeno na filosofia, na cultura, nas ciências e nas tradições religiosas. Ela age como fermento, a partir de dentro e levando à plenitude a filosofia, as ciências, as culturas e as religiões.

A fé pensa e dá o que pensar. Ela emancipa a razão humana abrindo-lhe horizontes de pesquisa e descoberta mais amplos, verdadeiros e humanizantes. A fé não bloqueia a razão, antes solicita o ser inteligente a caminhar em busca da verdade sem jamais se cansar, apesar de toda a canseira que essa busca implica.

A verdade é a meta da busca tanto da fé quanto da ciência. Hoje é muito difícil falar de “verdade” sem ser acusado de autoritarismo e desejo de domínio, mas a verdade não deve ser entendida como instrumento de imposição e de dominação. Ela é que dá sentido e significado genuíno à vida humana. Tanto a ciência quanto a fé estão a serviço da busca e do encontro daquilo que é sumamente significativo e humano.

A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada (LF 27).

Ciência e fé também estão unidas na superação do sofrimento humano. Elas informam e dão forma a um agir autenticamente humano. O agir cristão não se contrapõem ao que é autentica e verdadeiramente humano, pelo contrário procura ser um agir plenamente humano que nos faça mais humanos, nos faça verdadeiramente humanos.Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar conosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz (LF).

Dom Julio Endi Akamine, SAC
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

Dom Julio Endi é Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Belém do Pará, tem como lema episcopal “Bonum Facientes Infatigabiles – Não vos canseis de fazer o bem”. Natural de Garça (SP), ingressou em 1975 no Seminário da Sociedade do Apostolado Católico (Padres Palotinos) e foi ordenado presbítero em 1988. É mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Ao longo de sua trajetória pastoral, atuou como vigário paroquial, pároco, reitor de seminário e professor, além de ter exercido a função de Reitor Provincial da Província Palotina São Paulo Apóstolo. Foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo em 2011 e, posteriormente, Arcebispo de Sorocaba. Desde 6 de agosto de 2025, exerce o ministério de Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará.

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