Domingo de Ramos e a Coleta da Solidariedade: fé que se transforma em compromisso

Caríssimos leitores, ao término desta Quaresma, iniciamos a Grande Semana — a Semana Santa. Para refletirmos sobre o Domingo de Ramos, contamos com as contribuições da Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.

O Domingo de Ramos abre a Semana Santa e ocupa um lugar singular na vida da Igreja. Neste dia, os cristãos recordam a entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido com ramos e aclamações, ao mesmo tempo em que iniciam o caminho que conduz à cruz. Trata-se de uma celebração marcada por contrastes: a alegria do povo e o anúncio da paixão. Nesse contexto, a Igreja no Brasil vivencia também a Coleta da Solidariedade, ligada à Campanha da Fraternidade (CF-2026), como gesto concreto de partilha e compromisso com os mais pobres.

A liturgia de Ramos nos apresenta um Messias que rompe expectativas. Jesus entra na cidade montado num jumento, sinal de humildade e serviço. Ele não se impõe como um rei poderoso, mas se revela como aquele que se coloca ao lado dos pequenos e sofredores. O Papa Francisco recorda que “Jesus não salva a partir de um trono, mas da cruz”, ensinando que o verdadeiro poder se manifesta no amor que se entrega. Essa é a base da solidariedade cristã.

A Coleta da Solidariedade, realizada tradicionalmente neste domingo, expressa de forma concreta o sentido do Evangelho. Não se trata apenas de uma arrecadação financeira, mas de um gesto de comunhão. Os recursos arrecadados são destinados ao apoio de projetos sociais em todo o país, especialmente voltados às populações mais vulneráveis. Assim, a celebração litúrgica se prolonga em ação concreta, unindo fé e vida.

São João Paulo II afirmava que a solidariedade não é um sentimento vago, mas “a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum”. Essa compreensão ilumina o sentido profundo da coleta: contribuir é reconhecer que somos responsáveis uns pelos outros. A fé cristã, portanto, exige compromisso com a justiça social. Não se trata de assistencialismo, mas da promoção da dignidade e da esperança.

O Papa Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, recorda que a caridade é parte essencial da missão da Igreja, juntamente com o anúncio da Palavra e a celebração dos sacramentos. Para ele, a caridade organizada é resposta concreta às necessidades do mundo. A Coleta da Solidariedade insere-se plenamente nessa visão: é a Igreja colocando em prática, de modo estruturado e responsável, o mandamento do amor.

No contexto da Campanha da Fraternidade 2026, a coleta ganha ainda mais força, pois reforça o chamado à conversão pessoal e social. A Campanha convida a olhar para uma realidade concreta do país e a responder a ela à luz do Evangelho. O gesto de partilhar — mesmo quando parece pequeno — educa o coração e contribui para a construção de uma sociedade mais fraterna.

O Papa Francisco insiste que não pode haver verdadeira espiritualidade cristã sem atenção aos pobres. Em diversas ocasiões, ele alerta contra o risco de uma fé “fechada em si mesma”, incapaz de se deixar tocar pelo sofrimento do outro. A solidariedade, nesse sentido, é um caminho de conversão: rompe o comodismo e nos aproxima do estilo de vida de Jesus.

Assim, o Domingo de Ramos não é apenas a memória de um acontecimento passado, mas um chamado atual e concreto. Ao segurar os ramos e participar da Coleta da Solidariedade, cada cristão é convidado a se perguntar: que tipo de discípulo deseja ser? Aquele que apenas aclama Jesus com palavras ou aquele que O segue no caminho do serviço e da doação?

Ao iniciar a Semana Santa, a Igreja convida cada fiel a unir celebração e vida. Os ramos levados para casa não devem permanecer como simples símbolos externos, mas como sinais de um compromisso assumido: viver segundo o Evangelho. A Coleta da Solidariedade da CF-2026 reforça esse chamado, mostrando que a fé cristã se concretiza na partilha.

O Domingo de Ramos, portanto, não se encerra na celebração litúrgica. Ele continua na vida cotidiana, nas escolhas que fazemos e na forma como nos relacionamos com os outros. Inspirados pelos ensinamentos dos Papas e pelo testemunho de Jesus, somos chamados a dar um passo além: passar da aclamação à ação, da palavra ao gesto, da fé professada à fé vivida. É esse caminho que dá sentido à Semana Santa e renova a esperança de um mundo mais solidário.

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará

Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

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