Após algumas horas de terrível sofrimento, Jesus morre na cruz. Termina o trabalho dos executores. O que se tem diante dos olhos é um homem morto.
Cessam as agressões; os zombadores emudecem. Retiram-se os curiosos. A tristeza se instala no espírito dos amigos. Muitos discípulos não escondem a decepção (“nós esperávamos que fosse ele quem iria redimir Israel”).
Diante do crucificado, cabe bem o silêncio e a contemplação. Esta celebração da Paixão nos convida a adorar a cruz. É oportuno que nos perguntemos sobre o sentido de nossa adoração.
A cruz nos coloca diante do mistério da nossa iniquidade. Até que ponto podemos odiar? Até o ponto de perpetrar o pior dos crimes: matar Deus! Toda história da humanidade prova esta verdade terrível. Somos capazes de realizar gestos estupendos de solidariedade, de dedicação aos outros, de generosidade surpreendente. Somos também capazes do pior: crimes horrendos, genocídio pavorosos, ódio sem limite, vinganças absurdas.
Na cruz, está o documento de nossa acusação. Não temos desculpas que justifiquem nosso crime: crucificamos o inocente, matamos quem nos amou, retribuímos o bem com um crime sórdido, condenamos por inveja, abandonamos o amigo, traímos e renegamos como Pedro e Judas. Nada poderá mudar este fato: que nós realizamos o mal. Nem o arrependimento mais sincero, nem o castigo mais severo, tampouco a nossa morte pode cancelar este fato irreversível: nós pecamos. A cruz permanece diante de nós como um documento de acusação.
Será que Deus foi vencido pelo nosso crime? Ele fracassou diante de nossa rejeição?
A cruz nos coloca diante do mistério da piedade: até que ponto Deus pode amar! Ele nos amou até o fim, até a cruz. Deus vence nosso crime mergulhando o Filho no sofrimento que abraça a cruz como forma radical de doação de sua vida. Jesus não sofreu a cruz passivamente, mas a assumiu como preço de nossa salvação, como meio de entrega amorosa pela nossa redenção. Deus é a onipotência do amor. No amor Deus pode tudo: pode até mesmo morrer pelos inimigos. Nisto consiste a Boa nova: na cruz Jesus destruiu o documento de nossa acusação. Em vez de nos castigar pela cruz que impusemos a Jesus, Deus transformou o instrumento de suplício em nossa salvação. Pela cruz não somos condenados, mas perdoados.
Não adoramos a cruz como o nosso documento de acusação: a consciência do crime não nos salva. Hoje nós adoramos a cruz instrumento de nossa salvação. Deus converteu nosso pecado em ocasião para uma extraordinária comunicação de graça. Se grande foi nosso pecado, maior é o coração de Deus! De agora em diante a memória de nosso pecado não nos levará mais ao desespero, mas ao abandono nas mãos dAquele que nos salva, à gratidão pela sua infinita misericórdia. Onde abundou o pecado, superabundou a graça.
Não adoramos a cruz como instrumento de ódio contra Deus, pois quem ama não fabrica cruzes para os outros, não impõe sofrimentos a ombros alheios.
Adoramos a cruz de Jesus abraçada em solidariedade com os crucificados deste mundo. Jesus se deixou crucificar para protestar contra as cruzes injustas que se impõem sobre os pequenos, para interromper o sofrimento dos inocentes, para deixar claro que Deus está do lado de quem sofre.
Foto: PASCOM | Catedral de Belém

Dom Julio Endi Akamine, SAC
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
Dom Julio Endi é Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Belém do Pará, tem como lema episcopal “Bonum Facientes Infatigabiles – Não vos canseis de fazer o bem”. Natural de Garça (SP), ingressou em 1975 no Seminário da Sociedade do Apostolado Católico (Padres Palotinos) e foi ordenado presbítero em 1988. É mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Ao longo de sua trajetória pastoral, atuou como vigário paroquial, pároco, reitor de seminário e professor, além de ter exercido a função de Reitor Provincial da Província Palotina São Paulo Apóstolo. Foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo em 2011 e, posteriormente, Arcebispo de Sorocaba. Desde 6 de agosto de 2025, exerce o ministério de Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará.