Bem-aventurados os que preparam o Coração

Caros leitores, neste domingo, convido vocês a refletirem sobre como podemos preparar nosso coração na Quaresma que se aproxima. Para me acompanhar nesta conversa, conto com a contribuição de Sylvia Calandrini, licenciada em Letras e professora do Instituto Vicentino Catarina Labouré.

Os gestos de Jesus são simples: sentar e começar a ensinar. O ensinamento? Como sempre, pleno de sentido: quem deseja escutar as bem-aventuranças precisa deixar o barulho de baixo e permitir-se uma elevação interior. No Evangelho proclamado no 4º Domingo do Tempo Comum (Mt 5,1-12a), não recebemos apenas palavras belas; somos confrontados com um modo novo de viver. Às vésperas da Quaresma, é um verdadeiro exame de consciência: que tipo de felicidade temos buscado?

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” A pobreza de espírito não é miséria, mas liberdade interior. É reconhecer que não somos autossuficientes. E preparar o coração começa por essa humildade concreta: saber pedir perdão, aceitar limites. Num contexto social marcado por desigualdades tão visíveis, a pobreza evangélica também se traduz em sobriedade, consumo responsável e compromisso com os que vivem à margem.

“Bem-aventurados os mansos.” A mansidão não é fraqueza; é força dominada pelo amor. Num tempo de discursos agressivos e julgamentos rápidos, a mansidão é uma atitude profundamente contracultural. No cotidiano, isso se aprende na família, no trânsito, no ambiente de trabalho e até nas redes sociais: responder sem violência, escutar antes de reagir, escolher o diálogo.

“Bem-aventurados os que choram.” Jesus não glorifica o sofrimento, mas afirma que Deus não é indiferente às lágrimas humanas. Choramos por perdas, injustiças, violências e também pelos pecados pessoais e sociais. A Doutrina Social da Igreja recorda que a indiferença é uma das maiores doenças do nosso tempo. Preparar o coração é permitir-se ser tocado pela dor do outro: o desempregado, o jovem sem perspectivas, a vítima da violência urbana, os povos da floresta ameaçados. Quem chora com o outro já começou a caminhar na esperança.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.” Não se trata apenas de cumprir leis, mas de desejar que a dignidade humana seja respeitada. No cotidiano, isso passa por atitudes simples e exigentes: honestidade, defesa da vida, cuidado com o bem comum. Santa Teresa de Calcutá dizia que “o que conta não é quanto fazemos, mas quanto amor colocamos no que fazemos”. A fome de justiça nasce desse amor que não se acomoda.

“Bem-aventurados os misericordiosos.” A misericórdia é o coração do Evangelho, e num mundo marcado por cancelamentos e exclusões, ela deve se traduzir em perdão, paciência e recomeço. Preparar-se para a Quaresma é perguntar-se: a quem preciso perdoar? De quem me afastei? A misericórdia não nega a verdade, mas abre caminhos de reconciliação.

“Bem-aventurados os puros de coração.” Pureza, aqui, é integridade. É viver sem duplicidade, com coerência entre fé e vida. Em meio a tantas informações, imagens e estímulos, a pureza do coração exige vigilância e escolhas responsáveis. E, para não esquecer: onde está o seu tesouro, aí esteja também o seu coração (Mt 6,21). Que tesouros temos cultivado?

“Bem-aventurados os que promovem a paz.” A paz começa dentro e se espalha. Não é ausência de conflitos, mas fruto da justiça e do amor. Em nossas comunidades, escolas e famílias, ser promotor da paz significa mediar, reconciliar, construir pontes. É uma tarefa diária e exigente, mas profundamente evangélica.

Por fim, Jesus proclama felizes os perseguidos por causa da justiça. Viver as bem-aventuranças tem um preço, porque confronta lógicas egoístas e estruturas injustas. Ainda assim, é esse caminho que prepara o coração para a Páscoa.

A Quaresma que se aproxima não é um tempo triste, mas um convite à conversão alegre, concreta e comprometida. Subir a montanha com Jesus é deixar-se ensinar por Ele e descer transformado, levando ao mundo sinais de uma felicidade que não passa. De fato “a palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinônimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade” (Francisco, 2018, GE 64).

Dom Paulo Andreolli, S.X.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará

Dom Paulo Andreolli é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará e tem como lema episcopal “Corações ardentes, pés a caminho”. Natural de Pojana Maggiore (Itália), ingressou ainda jovem no Seminário dos Missionários Xaverianos e foi ordenado presbítero em 2000. Ao longo de sua missão, atuou como animador missionário, vigário paroquial, pároco e assessor em organismos eclesiais, com forte presença pastoral no estado do Pará. Em 2007 foi enviado em missão para o Brasil, em São Félix do Xingu (PA), com intensa dedicação à animação missionária e vocacional, especialmente entre os jovens. A partir de 2017, deu continuidade à missão no Pará, com atuação na comunidade formativa de Ananindeua. Foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém do Pará pelo Papa Francisco em 2023, exercendo seu ministério a serviço da evangelização e da ação missionária.

Compartilhe o post

Veja também

Fique sempre por dentro de todos os nossos conteúdos

Conecte-se e acompanhe tudo em primeira mão