EIS QUE FAÇO NOVAS TODAS AS COISAS

Na chamada mudança de época em que nos encontramos, é frequente uma observação a respeito dos mandamentos e as normas morais da vida cristã. Sobre os cristãos chega uma enxurrada de provocações, dando conta que o mundo mudou, e muitas coisas antes consideradas como pecado deveriam ser admitidas com plena liberdade. Inclusive é aparentemente fácil jogar no rosto de que tem fé as eventuais falhas dos cristãos no correr da história, falhas estas que não mancharam a própria Igreja, mas se tornam pedras continuamente usadas para atacá-la, considerando-a retrógada e inadequada para os tempos modernos. Parece a tais pessoas que a novidade deveria vir da mudança na Palavra de Deus, nos mandamentos e na moral cristã. 

Jesus se encontra a ensinar no templo (Jo 8,1-11) e um grupo de pessoas que se consideravam proprietários da lei e da moral lhe trazem uma mulher surpreendida em adultério. Mais do que a situação dolorosa e pecaminosa em que esta pessoa se encontrava, trata-se de uma verdadeira armadilha, pois qualquer que fosse a resposta dada por Jesus a respeito de uma eventual sentença sobre o caso, seria ele mesmo chamado em juízo e condenado por contrariar a lei ou o amor misericordioso, que era a sua fama. Jesus não modifica qualquer letra ou sinal na lei antiga, mas amplia o horizonte, forçando seus interlocutores a se reconhecerem, também eles, pecadores. Esvazia-se a condenação pela fuga dos juízes!

Dá para imaginar aquela mulher prostrada ao chão, duramente envergonhada pelo pecado que se tornou público e pela sentença de morte praticamente definida. Terrivelmente curioso é saber que o autor do adultério, um homem, não era condenado, apenas a mulher, num ambiente opressor em relação a uma mulher pecadora! Não sabemos o que Jesus escrevia da areia, única vez em que ele, Palavra Eterna do Pai que se faz Carne, andou escrevendo! Podia ser uma lista dos pecados dos acusadores, ou quem sabe a descrição do que ouvira a respeito da mulher, melhor ainda se fosse uma declaração de perdão! O que importa é que o vento apagou logo o que escrevia! De qualquer forma, viu-se sozinho com a mulher adúltera, que deve ter se elevado, trocando olhares confiantes e agradecidos com Jesus. Desaparecidos os acusadores, a libertadora sentença final: “Ele levantou-se e disse: ‘Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?’ Ela respondeu: ‘Ninguém, Senhor!’ Jesus, então, lhe disse: ‘Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,10-11). O Senhor a trata com o mesmo respeito com que chamou sua Mãe nas Bodas de Caná e no Calvário, Mulher! Não era o desprezo daquele “esta mulher” dos acusadores! Jesus não nega a lei, mas apresenta a Nova Lei da Misericórdia e do Perdão. O único que poderia apedrejar, por ser sem pecado, mostra claramente que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (cf. Ez 22,11). 

Se o Evangelho de São Lucas nos contou as parábolas da Misericórdia, especialmente a do Pai Misericordioso e o Filho Pródigo, mais forte é a realidade contada pelo Evangelho de São João do que a parábola, de forma a entrarmos todos na mesma aventura.

Vamos lá! A Lei do Amor e da Misericórdia, chegada com Jesus, nos abre o horizonte. A verdade das normas morais é bem definida e não vem a ser mudada ao sabor dos acontecimentos. Se percorrermos os mandamentos, os que parecem humanamente mais difíceis são caminhos de vida e liberdade, não de opressão ou escravidão. Reconhecer as limitações existentes em nós não é a experiência de dedos acusadores em riste, mas da Luz verdadeira que veio a este mundo, capaz de mostrar o erro e ao mesmo tempo sanar com o fogo do amor que liberta. Um honesto exame de consciência, inclusive o que somos chamados a fazer na Quaresma, só pode ser fruto de um encontro pessoal com o Senhor, que nos quer vivos e felizes, não acusados nem condenados!

Reconhecida a realidade do pecado, trata-se então de acolher o amor libertador de Jesus Cristo. Saber que somos amados não porque eventualmente sejamos justos, mas com um amor precedente a qualquer mérito humano. E cabe a nós, no relacionamento com os outros, anunciar a todas as pessoas encontradas o mesmo amor. E nem é obrigatório dizer que Jesus ama a pessoa, mas ser este amor do Senhor por todos. Vale uma visita, vale um olhar isento de julgamentos, vale um elogio.

E quando nos deparamos com casos extremos, em que as pessoas se afastaram totalmente do bem e da verdade? No plano de Deus, todos são candidatos a união com ele e à capacidade de amar e ser amados. Mãos estendidas, quando encontramos gente revoltada e de mal com a vida, escuta atenta de histórias, em geral longas e complicadas, atenção, olhar ao redor para identificar o bem que podemos fazer.

E, por falar em casos difíceis, há um método, o diálogo, feito de confronto respeitoso de pontos de vista e práticas de vida, possível e desejável em nossos dias. Pensemos no campo das mudanças climáticas e nas questões de ecologia, quando a Igreja propõe, na Campanha da Fraternidade, a busca de Ecologia integral. Descubramos o quanto pessoas do campo da intelectualidade podem aproximar-se e conversar conosco, com resultados certamente positivos para a Igreja e o conjunto da sociedade.

São caminhos para que tudo se torne novo, e não destruamos a vida que de Deus recebemos. De dentro de homens e mulheres virão as forças necessárias, plantadas pelo Espírito Santo de Deus, sem o qual nada subsiste. Podemos então rezar: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis de vossa face, nem retireis de mim o vosso Santo Espírito! Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso!” (Sl 50,12-14).

Presidente da Rede Nazaré de Comunicação, também é apresentador de programas na TV e Rádio e articulista de diversos meios impressos e on-line, autor da publicação anual do Retiro Popular.

Enquanto Padre exerceu seu ministério na Arquidiocese de Belo Horizonte – MG: Reitor do Seminário, Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Pároco em várias Paróquias, Vigário Forâneo, Vigário Episcopal para a Pastoral e Capelão de Hospital.

Foi Bispo Auxiliar de Brasília, membro da Comissão Episcopal de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal Latino – Americano – CELAM. Tomou posse como primeiro Arcebispo Metropolitano de Palmas – TO. Atualmente o 10º Arcebispo Metropolitano de Belém.

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém

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