Olhar para a própria história com os olhos de Deus é um desafio constante, pois com ele se contam mais as rosas do que os espinhos da roseira. De fato, Deus nos concede a visão de um plano de salvação e de graça, pensado para a humanidade e para todas as pessoas. Não fomos feitos para a perdição e condenação, mas para a vida se comunhão com Deus e com os outros.

         No entanto, o cristão não olha para vida com pensamento positivo, quase mágico, mas é chamado ao realismo que só a fé pode suscitar em seu coração. Antes, ele é capaz de enxergar tudo através das chagas do Coração de Cristo. Pode proclamar com confiança: “Chagas abertas, ó coração ferido! Sangue de Cristo está entre nós e o perigo! Deus pode cuidar de tudo, posso descansar seguro, Deus está cuidando de tudo ele é o meu amparo e abrigo” (Celina Borges). O cristão abraça a Cruz com seu Senhor Jesus Cristo e passa além da chaga e da morte, para ver a luz resplandecente da Ressurreição. Este realismo pode receber o nome de otimismo da fé!

         Jesus se manifestou de várias formas e a Igreja abre diante de nossos olhos tais manifestações. Os primeiros a vê-lo nascido em Belém foram pobres pastores dos arredores do presépio. Homens vindos de longe, magos ou sábios, guiados pela estrela da consciência que aponta para Deus, venceram todos os obstáculos para adorá-lo e oferecer-lhe o obséquio de seus presentes de ouro, incenso e mirra. Depois da saga da vida oculta em Nazaré, as margens do Jordão assistiram a manifestação da voz do Pai, o Espírito em forma de pomba e o Filho amado, descido às águas e saindo para a missão. Em Caná (Jo 2,1-12), os primeiros discípulos foram os destinatários do primeiro milagre, o da alegria dos tempos messiânicos, simbolizada pelo vinho novo. Certamente ali puderam também conhecer a Estrela da Evangelização, Mãe de Jesus, com seu testamento: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5)

          Na história da Igreja, ficou muito clara a força da palavra dos Atos dos Apóstolos: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no reino de Deus” (At 14,22). Passar da tristeza para a alegria, passar do pecado para a graça, das trevas para a luz! Passar pelos embates da implantação da vida da Igreja, como assistimos em nossa longa história da Diocese de Belém, compartilhar as dores e alegrias, as esperanças e as conquistas, descobrir que a falta do necessário sempre conduziu a ouvir a Virgem Maria dizendo para fazer o que Ele diz.

Na história da Igreja, os santos e especialmente os mártires nos mostraram quantos frutos podem vir do abraço à Cruz de Cristo. Tomemos o exemplo do mártir São Sebastião, ajudados pelas indicações de Santo Ambrósio a respeito do santo de tanta devoção popular, celebrado também neste final de semana (Cf. o Comentário sobre o Salmo 118, de Santo Ambrósio, bispo, século IV):

É originário de Milão. Talvez o perseguidor já tivesse se afastado ou talvez ainda não tivesse vindo a este lugar, ou fosse mais condescendente. De qualquer modo, Sebastião compreendeu que ali, ou não haveria luta, ou ela seria insignificante. Partiu então para Roma, onde por causa da fé havia uma tremenda perseguição. Passou para a provação maior! Em Roma sofreu o martírio, isto é, lá foi coroado com a vitória. Assim, no lugar onde chegara como hóspede, encontrou a morada da eterna imortalidade, passando com Cristo da morte para a vida. Se só houvesse um perseguidor, talvez este mártir não tivesse sido coroado. Mas o pior é que os perseguidores não são apenas os que se veem; há também os invisíveis, e estes são muito mais numerosos. Sobre tais perseguições foi dito: Todos os que querem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos (2 Tm 3,12). Quantos há que, às ocultas, todos os dias, são mártires de Cristo e proclamam que Jesus é o Senhor! O apóstolo Paulo, testemunha fiel de Cristo, conheceu este martírio, pois afirmou: “A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência” (2Cor 1,12).

Os mártires e todos os que se gloriam do nome de cristãos estão mergulhados na vida cotidiana como todos os outros homens e mulheres. Ninguém está isento das perseguições internas e externas, ninguém está vacinado contra crises e decepções. Só que aprenderam a passar pelas dores e sofrimentos, superando os obstáculos. Para os cristãos de verdade, o dia de hoje é sempre melhor do que ontem, e o amanhã será melhor do que hoje. Trata-se da capacidade, e esta só pode vir de Deus, de “dar a volta por cima”, prática pascal, a fim de que no dia a dia se repita o milagre do gosto novo para a existência, com a graça de aproveitar sempre e cada vez mais as lições do cotidiano.

Na memória de nossa Igreja de Belém, no alto de seus trezentos anos de criação, sabemos que tudo tem concorrido para o bem dos que amam a Deus (Cf. Rm 8,28). No mar e nos rios da misericórdia de Deus, muito mais do que as seis talhas de Caná, estão repletas as nossas vasilhas da purificação da memória que nos cabe fazer, sabendo que a intercessão de Nossa Senhora, de Nazaré a Belém, passando pela Graça, sempre nos tem oferecido a receita do milagre. Nunca nos faltou e não faltará o vinho da alegria!

 

Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação, também é apresentador de programas na TV e Rádio e articulista de diversos meios impressos e on-line, autor da publicação anual do Retiro Popular.

Enquanto Padre exerceu seu ministério na Arquidiocese de Belo Horizonte – MG: Reitor do Seminário, Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Pároco em várias Paróquias, Vigário Forâneo, Vigário Episcopal para a Pastoral e Capelão de Hospital.

Foi Bispo Auxiliar de Brasília, membro da Comissão Episcopal de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal Latino – Americano – CELAM. Tomou posse como primeiro Arcebispo Metropolitano de Palmas – TO. Atualmente o 10º Arcebispo Metropolitano de Belém.

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém