Atualmente muito se fala de “protagonismo”, de modo particular se acentua bastante o “protagonismo juvenil”. Dessa forma, ouvimos falar do protagonismo juvenil no mundo da moda, do protagonismo juvenil no uso das novas tecnologias; fala-se do protagonismo juvenil nas redes sociais, do protagonismo juvenil no mundo do lazer e dos esportes, do protagonismo juvenil no mundo do prazer; é perceptível o protagonismo juvenil no mundo das artes, sobretudo na música e na dança; é forte também o protagonismo juvenil nas escolas secundárias e universidades, nos clubes, nas Igrejas, na experiência do voluntariado.

Mas infelizmente também é patente o protagonismo juvenil no mundo da violência e da criminalidade em geral; lamentável a constatação do protagonismo juvenil no consumo e tráfico de entorpecentes!

Como se constata, o dinamismo juvenil nem sempre é saudável. Todavia, se os jovens têm força e inteligência impactante capaz de promover o mal, também o mesmo podemos dizer em relação ao potencial positivo para se promover o bem. Nesta reflexão, então, reflitamos sobre o protagonismo juvenil.

A palavra protagonismo

A palavra “protagonismo” é de origem grega: “proto” que significa o principal, o primeiro + a palavra “agon” que significa luta. Dessa forma o protagonista é aquele que luta! Ou seja, aquele que se manifesta como sujeito e, por isso, reage, toma iniciativa, tenta. O protagonista é aquele que tem coragem de se manifestar, é aquele que lidera, aquele que articula, aquele que anima, aquele que provoca… Protagonista é a aquele que assume responsabilidades!

O exercício do protagonismo, portanto, pressupõe que o sujeito tenha vitalidade, energia, inquietude, interesses pessoais, paixão, vontade, liberdade. O contrário do protagonismo é o comodismo, o vitimismo, a paralisia! Isso naturalmente não combina com a pessoa do jovem, justamente porque ele é ser portador de saúde e energia, sonhos e inquietudes, ousadia e desejo de experiências. Eis porque tanto falamos de protagonismo juvenil.

As fontes do protagonismo

*Somos sujeitos livres e responsáveis

Deus Criador nos capacitou para sermos protagonistas da nossa própria existência. Antes de tudo ele nos dotou de alma, por isso somos “animados”. Temos uma realidade invisível que nos faz dinâmicos, capazes de agir, reagir…

Podemos ser protagonistas porque somos sujeitos: seres racionais, inteligentes, capazes de querer (vontade), de tomar decisão (liberdade); somos sujeitos capazes de relacionamento (sociabilidade), capazes de amar (afetividade) e da qualidade para as nossas ações (moralidade). O Senhor do universo nos criou à sua imagem e semelhança

Esses e tantos outros dons são os recursos naturais que de Deus recebemos que nos possibilitam a experiência da subjetividade! Quem não exercita esses dons, se torna passivo! Que só padece as ações dos outros! Quem é “desanimado” não é protagonista!

*Somos batizados, discípulos-missionários

Outra fonte do nosso protagonismo é o nosso batismo. No Batismo recebemos o Espírito Santo que nos fez tomar consciência de que somos mais que criaturas, somos filhos de Deus. Esse sacramento nos incorporou no dinamismo divino. Não somos meras criaturas: como filhos-herdeiros dos bens divinos chamados a buscar a meta gloriosa, o bem maior, o paraíso, a nossa plenitude!

O batismo exige de nós uma atitude de protagonismo missionário, de amar a Deus e o próximo. É preciso demonstrar a fé através das obras, das iniciativas, das responsabilidades dentro da Igreja. “A fé sem obras é morta” (Tiago 2,17). Se o Espírito de Deus habita em nós então nos tornamos dinâmicos trabalhadores e servidores do Reino de Deus.

O protagonismo do batizado deve se expressar através da disponibilidade para a promoção do Reino de Deus.O protagonismo do batizado experimenta o espírito de iniciativa que brota da caridade, do amor. O amor é benfazejo, empreendedor, dinâmico.

Ser batizado é ser discípulo, seguindo o Mestre com alegria, tomando a sua cruz e não sendo carregado por Ele. Antes de tudo, o ser discípulo deve se expressar através da significatividade da própria vida cristã. Entre quem tem fé e quem não tem, deve haver uma grande diferença, pois temos o Senhor, o Salvador, o Mestre, o Modelo, o Caminho… Temos Esperança, uma promessa! Ele tudo pode, tudo vence, e nos chama para sermos seus aliados, discípulos, colaboradores!

3* Somos membros da Igreja

O protagonismo do batizado deve se expressar através da consciência de ser discípulo de Jesus Cristo na Igreja. Falar de Igreja significa experiência de vida comunitária, experiência de comunhão, de fraternidade, de envolvimento, de participação, de colaboração, de sinergia, de solidariedade…

O protagonismo de um membro de uma comunidade se expressa na capacidade de tomar iniciativa em prol da comunidade, dando ideias, assumindo responsabilidade, indo ao encontro dos afastados, testemunhando a alegria da própria fé!

O desafio da promoção do Protagonismo

O protagonismo não é gratuito! Para alguém crescer sadiamente precisa ser educado, orientado, acompanhado. Não basta ser protagonista, é preciso que esse protagonismo seja sadio. Para o discípulo de Jesus o protagonismo não é absoluto, mas condicionado, limitado. Antes de tudo o protagonismo do discípulo de Jesus é iluminado pelo Espírito Santo; é orientado pela pessoa, palavras, gestos e atitudes de Jesus Cristo; é apoiado pela fraternidade comunitária em comunhão com a Igreja; deve estar baseado em valores morais, éticos e cristãos.

Para sermos protagonistas de boas causas é preciso: superar a infantilidade, abandonar a passividade; renunciar ao comodismo; deixar de viver reclamando; evitar ficar acusando os problemas; educar-se para reconhecer as próprias riquezas; superar os próprios medos (de falar, de errar, de arriscar, de sugerir, de ser rejeitado, de sofrer…); crescer na capacidade de proposição; crescer na visão de mundo; desenvolver a capacidade de sonhar, a inquietude!;crescer na Mística do Reino de Deus…. a compaixão de Jesus Cristo pela Salvação da Humanidade.

Dois estímulos

O ano 2018 será o ano Nacional do Laicato. Papa Francisco: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que, muitas vezes, disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” (EG, 49).

O outro grande estímulo é o Sínodo sobre os jovens que acontecerá no mês de outubro que terá como tema: “Juventude, fé e discernimento vocacional”. Os jovens estão sendo insistentemente convocados a aprofundarem o sentido da própria vida e a darem a sua peculiar contribuição para o rejuvenescimento da Igreja e a melhoria do mundo.

O PROTAGONISMO JUVENIL

Continuemos a nossa reflexão sobre o protagonismo juvenil. No artigo anterior falamos sobre a origem da palavra “protagonismo”, o que significa e as suas diversas fontes, a saber o dinamismo do ser pessoa (inteligência, vontade, liberdade da pessoa…), o sacramento do Batismo, a consciência de vida eclesial e o compromisso de promoção do Reino de Deus.

Em todas essas instâncias somos chamados a nos manifestarmos como sujeitos dinâmicos. De fato, é isso que acontece! Os jovens, por estarem vivenciando uma fase profundamente rica de energias e ideais,são também especialmente convocados a testemunhar o próprio protagonismo.

Como é possível o protagonismo juvenil?

A vivência e testemunho do protagonismo juvenil não são automáticos. Não está escrito na natureza humana que, chegando o jovem a uma determinada idade, automaticamente começa a ser sujeito da própria vida. Muitos continuam na infantilidade!

Por isso afirmamos que o protagonismo juvenil não é automático! Uma vez que o protagonismo é expressão da consciência de subjetividade, então é necessário que a pessoa passe por um processo de formação para que possa se expressar como tal.

O protagonismo juvenil é possível somente através o crescimento humano pessoal para que possa conquistar maturidade. Sem a consciência de ser sujeito não há exercício de autonomia. O protagonista é aquele que não somente se sente sujeito, mas é capaz do exercício de gestão da própria vida.

O protagonismo só é possível através da reflexão, do discernimento, da capacidade de escolha! Pessoas maduras sabem discernir e escolher o que lhes é mais conveniente. O protagonismo juvenil é possível quando o jovem faz a experiência da liberdade e da responsabilidade. Quando desenvolve as suas aptidões pessoais (dotes, talentos, recursos dos quais disponibiliza…).

Barreiras que dificultam o protagonismo

Entre o comportamento de um adulto e aquele de uma criança, há uma grande diferença. Isso acontece por causa de muitos fatores de diferenciação: o desenvolvimento de capacidades (habilidades), a visão de mundo (horizontes), a qualidade de relacionamentos, o conhecimento da realidade, novos conteúdos assimilados, aquisição de capacidade crítica etc.

A maturidade que possibilita o protagonismo e requer a superação de alguns fenômenos ou barreiras, tais como:

– A infantilidade:trata-se das relações de dependência do adulto (pai, mãe, avós, professor, mestres, amigos…). O fenômeno da infantilidade não é uma questão cronológica, mas psicológica, diz respeito à qualidade de comportamento que não evidencia maturidade e autonomia;

– A passividade:é típico do ser sujeito e da pessoa adulta a capacidade de reagir, de tomar iniciativas, ser capaz de se defender ou atacar,de perceber ameaças, de proteger-se! A pessoa passiva, ao contrário, traz consigo um déficit de expressividade, e por isso,só padece a ação dos outros, sofre e fica parada! A criança quando ameaçada logo grita e chora implorando socorro!

– O comodismo:trata-se da busca de uma zona de conforto deixando que os outros promovam as melhores condições de vida para si e para todos.O comodismo, assim desenhado, é indiferença, apatia! Falta de senso de corresponsabilidade. Ao contrário, o protagonista tem uma alta consciência de altruísmo, solidariedade e corresponsabilidade.

– O vitimismo: a quarta barreira humana a ser superada para podermos fazer a experiência do protagonismo é o vitimismo. Trata-se de uma série de sentimentos negativos sobre os outros, sobre si mesmo e sobre as circunstâncias. Os outros são vistos como maldosos, violentos, agressivos, desonestos, dissimulados, perigosos, exploradores, enganadores etc. A pessoa vitimista se sente incapaz de lutar porque sente que a realidade que a rodeia é mais forte do que ela, e está perdida! Sua atitude então, é aquela de somente condenar,reclamar, acusar, chorar, arranjar desculpas, tudo justificar, explicar e não fazer nada!

– A prisão do medo: o medo é um sentimento saudável, mas quando sufoca a liberdade provoca a prisão da pessoa. Nascemos capacitados para enfrentar os desafios da vida; ser vítima do medo é não ter coragem para enfrentar os naturais desafios da existência. O medo exagerado gera a perda de oportunidades e a paralisia da pessoa.

Essas atitudes não combinam com o espírito juvenil; devem ser superadas! É preciso então,acreditar nas próprias potencialidades positivas, valorizá-las, explorá-las e canalizá-las a serviço da própria felicidade e do bem da sociedade.

Um NÃO ao paternalismo pastoral!

Se os jovens são os sujeitos do próprio crescimento, tem consciência das responsabilidades batismais, são capazes de assumirem responsabilidades, então é preciso da parte dos adultos (pais, sacerdotes, catequistas, líderes e educadores em geral), que seja superada qualquer forma de “paternalismo pastoral” e “paternalismo pedagógico”.

O “paternalismo pastoral e pedagógico” é a forma de evangelizar, catequisar e educar que não favorece o crescimento das pessoas, não forma sujeitos, mas sim, gera pessoas imaturas e dependentes. Quem tem sérias responsabilidades e faz isso, promove graves perdas na comunidade (família, grupo), porque não forma lideranças.

Os paternalistas não libertam, mas servem as pessoas para que elas possam servi-los. É uma sutil forma de manipulação das pessoas. Os jovens não querem isso, não querem tudo pronto! Querem sim, serem desafiados na busca e no “caça-tesouro” da vida.

Onde acontece o protagonismo juvenil?

Nessa perspectiva do desenvolvimento das potencialidades humanas, podemos dizer com certeza, que a experiência do protagonismo juvenil, não se manifesta simplesmente na ação pastoral, mas em muitos campos da vida. Dessa forma podemos dizer que o protagonismo juvenil se evidencia, antes de tudo, na gestão da própria vida do jovem, através do seu otimismo, vivacidade, subjetividade, alegria, ousadia, criatividade…

O protagonismo juvenil se manifesta na forma de enfrentamento dos desafios pessoais, sociais, profissionais, assumindo uma postura de luta; o protagonismo juvenil se revela no engajamento familiar e comunitário, na corresponsabilidade dentro de casa e nas múltiplas formas de serviços eclesiais na comunidade.

O protagonismo juvenil pode ser observado na sensibilidade social; muitos jovens e adultos estão profundamente comprometidos na promoção e defesa de muitas questões sociais como direitos humanos, meio ambiente, voluntariado social, política partidária, movimentos sociais etc.

Enfim, o protagonismo juvenil não depende de um espaço específico, nem de meios, nem de uma instituição, nem de suportes externos … Nem dos líderes! Depende de cada pessoa! Mas, para que essa ação se concretize na vida do jovem é necessário que se promova neles e para eles o processo gradual e sistemático do desenvolvimento humano!

REFLEXÃO:

É necessário a maturidade humana para o exercício do protagonismo saudável?

Dentre as barreiras que dificultam o protagonismo, qual delas mais lhe chama atenção?

O que você tem a dizer sobre o “paternalismo pastoral” e “paternalismo pedagógico”?

Natural de Capitão Poço (PA) foi ordenado sacerdote na cidade de Ourém, também no Pará. Salesiano formador, professor, mestre. Trabalhou boa parte de seu presbiterado no Amazonas. Hoje desenvolve trabalhos com a juventude, é auxiliar bispo de Belém, articulista e comunicador.

Foi conselheiro Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Belém-PA), diretor da Missão Salesiana de Yauaretê (AM), diretor do Colégio Dom Bosco e do Centro Juvenil Salesiano. Também esteve membro do Conselho Editorial da Revista de Pastoral da ANEC e membro do Comitê REPAM.

Atuou como Vice-Provincial da Inspetoria Salesiana Missionária da Amazônia, delegado provincial para a Pastoral Juvenil Salesiana e vocacional. Atualmente é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém.

Dom Antônio de Assis Ribeiro

Bispo Auxiliar de Belém