Afirmamos, em matérias anteriores, que o processo de evangelização implica a acolhida e a promoção humana em todas as suas dimensões. Isso significa que a Igreja não evangeliza “as almas”, mas as pessoas!

O Filho de Deus para salvar a humanidade assumiu a natureza humana na sua plenitude. Com o ato da encarnação, tudo o que é plenamente humano foi acolhido, assumido e santificado pela divindade.

Da mesma forma quando a Igreja evangeliza, dá atenção à totalidade das dimensões humanas. Dessa forma, a mensagem da Salvação, acolhida através da fé, santifica a pessoa na sua totalidade e lhe confere, pouco a pouco, uma nova consciência e um diferente dinamismo de vida.

*A fé abraça a totalidade da pessoa

A fé, portanto, deverá perpassar todas as dimensões da pessoa: a intelectual, a econômica, a política, a moral, a afetiva, a social, a cultural, a sexual, a lúdica, a profissional, a religiosa etc., enfim, a totalidade do dinamismo da pessoa.  A Pastoral Juvenil deve dar atenção à totalidade das dimensões da vida dos jovens.

Sintetizamos esse compromisso na expressão “evangelizar educando”.  Reforçamos a ideia de que a “pastoral” não é puro cuidado “religioso” e “espiritual”. Porém isso pode acontecer quando caímos no liturgismo e espiritualismo religioso, vivendo uma vida de fé sem impacto na própria existência. Jesus denunciou esse perigo acusando as atitudes dos fariseus (cf. Mt 23).

Recordemos o que nos diz o Concílio Vaticano II: “não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história” (Gaudium et Spes, 1).

*O duplo compromisso evangelizador

“Evangelização e educação” é um binômio (dois nomes, duas palavras) inseparáveis para a missão da Igreja Católica. Aliás, é um distintivo da verdadeira evangelização! A fonte dessa inseparabilidade, deriva da dupla dimensão estruturante do ser humano: somos horizontais (relação com o mundo) e verticais relação com Deus.

Esse duplo compromisso deriva da composição do ser humano, formado por “corpo e alma”,“matéria e espírito”; temos uma dimensão visível e outra invisível. Vem da própria missão da Igreja que existe para evangelizar abraçando a totalidade das dimensões humanas.

Evangelizar educando é uma síntese da promoção integral da pessoa humana que envolve a totalidade da sua realidade visível e invisível, tão necessária para o presente quanto para o futuro; importante para o mundo, e condição fundamental para a perspectiva celeste, proporcionando evidente comunhão entre Fé e Razão.

Evangelizar na perspectiva católica quer dizer estimular o desenvolvimento integral da pessoa humana a partir da experiência da fé; promovê-la na sua totalidade de corpo e alma: ser, pensar, sentir, agir, escolher, relacionar-se! O ser humano é uma totalidade unificada!

Quando os processos evangelizadores, pastorais e catequéticos não contemplam essa realidade, promove-se pessoas esquizofrênicas dentro da Igreja: cheias de “fé e piedosas”, mas afetivamente frias, socialmente descomprometidas e fechadas, com um desenvolvimento humano atrofiado; pessoas sofridas, fechadas, tristes, amarguradas, hipersensíveis etc. Quando isso acontece é porque houve falha na formação humana. Onde há vazio na formação humana, a experiência de fé fica insustentável.

*O desafio da cultura reducionista

Hoje em dia, vivemos numa sociedade onde a educação, em muitos contextos, está sendo refém de interesses políticos, governistas, econômicos, religiosos… Por outro lado, sentimos também uma forte pressão de ideologias reducionistas, tecnicistas, materialistas, utilitaristas na gestão educacional que põe em risco a perda da visão da totalidade das dimensões da pessoa humana.

No que diz respeito à evangelização, o fenômeno da superficialidade, o ritualismo, o imediatismo, a pressa, o devocionismo, a superstição são pesados obstáculos a serem superados. Todos esses fenômenos infelizmente causam sérios prejuízos ao crescimento na fé.

A cultura reducionista nos estimula a limitar a significatividade e a amplitude da beleza da fé e do dinamismo da vida espiritual, que deve dar sentido para a totalidade da nossa vida. A experiência da fé não deve ser reduzida a um puro ato isolado na dimensão religiosa. Quando isto ocorre, as consequências são desastrosas: uma vida religiosa sem compromissos concretos em vista da promoção vida do nosso semelhante é inconsequente e sem sentido!

*O Evangelho e a Vida

Para que isso não ocorra, os evangelizadores, os catequistas, os pregadores e agentes de pastorais devem zelar cuidadosamente pela inseparável relação entre evangelização e educação. Podemos dizer que a verdadeira evangelização não vive somente de atividades religiosas, mas de corresponsabilidade uns para com os outros, pois a alma humana clama por muitos cuidados, tem muitas fomes e sedes!

Falar de “Evangelho” quer dizer também falar da dimensão ética que brota da fé, é estimular a experiência de responsabilidade pela promoção do Reino de Deus. É levar em conta as riquezas do dinamismo e das potencialidades da consciência moral alicerçadas no agir de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6).

*Atitudes concretas desse compromisso

Evangelizar educando, significa que a pastoral não deve falar só de coisas espirituais; significa não reduzir o ato de evangelizar (e catequizar) à pura informação sobre Jesus Cristo e a doutrina da Igreja; significa não preocupar-se só com as questões religiosas e com a beleza da liturgia na Igreja, mas é necessário dar atenção a liturgia da vida, do cuidado, do zelo, do apreço pela vida do nosso semelhante, darmos testemunhos concretos da postura humana e divina de Cristo.

Evangelizar educando, significa estimular a partir das verdades da fé, o sentido da vida que levará a pessoa humana a viver com sabedoria, para que “vivendo entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”, e assim trilhar um caminhando de santidade, rumo à vida eterna!

Evangelizar educando, significa que a ação pastoral e catequética deve tocar a consciência humana, atingir o coração, transformar a mente das pessoas! Significa que evangelização deve falar da vida concreta e estimular a busca do bem, a vivência da Paz e a paixão pela Verdade, justiça, e honestidade! Somos o Sal da terra e a Luz do mundo (cf. Mt 5,13-14). Quando a evangelização educa, forma discípulos missionários verdadeiramente comprometidos com a promoção do Reino de Deus.

 

Natural de Capitão Poço (PA) foi ordenado sacerdote na cidade de Ourém, também no Pará. Salesiano formador, professor, mestre. Trabalhou boa parte de seu presbiterado no Amazonas. Hoje desenvolve trabalhos com a juventude, é auxiliar bispo de Belém, articulista e comunicador.

Foi conselheiro Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Belém-PA), diretor da Missão Salesiana de Yauaretê (AM), diretor do Colégio Dom Bosco e do Centro Juvenil Salesiano. Também esteve membro do Conselho Editorial da Revista de Pastoral da ANEC e membro do Comitê REPAM.

Atuou como Vice-Provincial da Inspetoria Salesiana Missionária da Amazônia, delegado provincial para a Pastoral Juvenil Salesiana e vocacional. Atualmente é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém.

Dom Antônio de Assis Ribeiro

Bispo Auxiliar de Belém