A Exortação Apostólica “Verbum Domini”, do Papa Bento XVI, a seu tempo, ofereceu indicações precisas e importantes sobre o compromisso cristão na transformação do mundo. De fato, a vida cristã transborda em práticas iluminadas pela caridade, fazendo com que o amor ao próximo se atualize constantemente, inclusive levando em conta as contínuas mudanças da sociedade. Nascem novas fronteiras à ação humana no mundo, surgem novas e desafiadoras formas de pobreza e multiplicam-se os desafios à criatividade dos cristãos, para fazer frente a este horizonte a ser adequadamente conhecido e encontrem resposta adequada da parte de todos.

Nossa Igreja de Belém, ao comemorar os trezentos anos de sua criação como Diocese, hoje Arquidiocese, quer dar o seu testemunho de compromisso com o serviço e a caridade, dentro do espírito com que foi convocada a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, através de suas várias iniciativas e obras. Recentemente iniciamos a preparação para a Jornada Mundial dos Pobres, convocada pelo Papa Francisco, a ser celebrada no mês de novembro. Estamos arregimentando todas as forças vivas da Arquidiocese nesta direção, como parte de nosso esforço para “organizar a caridade”.

Há pouco tempo, uma visita do presidente da CNBB, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, abriu uma significativa vertente de contribuições dos Padres Sinodais, ao salientar a necessidade premente de uma ação pastoral evangelizadora fundada na Palavra de Deus, a fim de que os frutos de compromisso cristão na transformação do mundo sejam consistentes e expressem de verdade a natureza da Igreja e sua missão.

A Exortação Apostólica “Verbum Domini” (Números 99 a 108), de Bento XVI, cujos ensinamentos estão iluminando esta preparação ao Sínodo e oferecemos a todos, mais um tema na esteira de reflexões anteriores, oferece a base para a ação da Igreja no rumo da transformação do mundo. Afirma o Papa que própria Palavra de Deus nos recorda a necessidade do nosso compromisso no mundo e a responsabilidade diante de Cristo, Senhor da História. Quando anunciamos o Evangelho, exortamo-nos a cumprir o bem e a empenhar-nos pela justiça, pela reconciliação e pela paz.

Há uma certeza em nossa fé de que toda a história está sob o juízo de Deus: “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele (Mt 25,31-32). E o Evangelho recorda-nos que cada momento da nossa existência é importante e deve ser vivido intensamente, sabendo que cada um deverá prestar contas da própria vida. O Senhor considera como feito ou não feito a si aquilo que tivermos feito ou deixado de fazer a um só dos seus irmãos mais pequeninos: “Eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me”. (Mt 25, 25-45).

Desdobramentos necessários incidirão no comportamento dos cristãos. Em primeiro lugar, a Palavra de Deus suscita relações humanas animadas pela retidão e pela justiça, confirma o valor precioso aos olhos de Deus de todas as fadigas do homem para tornar o mundo mais justo e mais habitável. A própria Palavra de Deus denuncia, sem ambiguidade, as injustiças e promove a solidariedade e a igualdade. À luz das palavras do Senhor, reconheçamos os sinais dos tempos presentes na história, não nos furtemos ao compromisso em favor dos que sofrem e são vítimas do egoísmo. O compromisso pela justiça e a transformação do mundo é constitutivo da evangelização. Segundo São Paulo VI, trata-se de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação.

Depois, nasce aqui um apelo aos fiéis leigos formados na escola do Evangelho intervir diretamente na ação social e política, para a qual é necessária adequada educação segundo os princípios da doutrina social da Igreja. A evangelização e a difusão da Palavra de Deus devem inspirar a ação no mundo à procura do verdadeiro bem de todos, no respeito e promoção da dignidade de toda a pessoa e todos os que se empenham na luta pela justiça. E cabe à Igreja o direito e o dever de intervir sobre as questões éticas e morais que dizem respeito ao bem das pessoas e dos povos, como tem elevado o clamor diante da grave crise socioambiental.

Além disso, a Palavra de Deus suscita a defesa e a promoção dos direitos humanos universais, invioláveis e inalienáveis de toda pessoa. A afirmação de tais direitos, mais eficazmente reconhecida e promovida universalmente, é característica impressa por Deus criador na sua criatura, assumida e redimida por Jesus Cristo através da sua encarnação, morte e ressurreição. Por isso a difusão da Palavra de Deus não pode deixar de reforçar a consolidação e o respeito dos direitos humanos de cada pessoa.

Mais ainda! Atualíssimo o apelo da “Verbum Domini” pela promoção da reconciliação e da paz. No contexto atual, é grande a necessidade de descobrir a Palavra de Deus como fonte de reconciliação e de paz, porque nela Deus reconcilia em si todas as coisas (Cf. 2 Cor 5, 18-20; Ef 1, 10). Cristo é a nossa paz (Ef 2, 14), aquele que derruba os muros de divisão. São muitos os conflitos e as tensões presentes no mundo. E mesmo entre nós, onde não existem conflitos religiosos declarados, é importante reafirmar que a prática religiosa nunca pode justificar a intolerância ou a manipulação da religião. Não se pode usar a violência em nome de Deus! Toda religião deve impelir para um uso correto da razão e promover valores éticos que edifiquem a convivência. Nunca esqueçamos que onde as palavras humanas se tornam impotentes, porque prevalece o trágico clamor da violência e das armas, a força profética da Palavra de Deus não esmorece e repete-nos que a paz é possível e que devemos, nós mesmos, ser instrumentos de reconciliação e de paz.

Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação, também é apresentador de programas na TV e Rádio e articulista de diversos meios impressos e on-line, autor da publicação anual do Retiro Popular.

Enquanto Padre exerceu seu ministério na Arquidiocese de Belo Horizonte – MG: Reitor do Seminário, Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Pároco em várias Paróquias, Vigário Forâneo, Vigário Episcopal para a Pastoral e Capelão de Hospital.

Foi Bispo Auxiliar de Brasília, membro da Comissão Episcopal de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal Latino – Americano – CELAM. Tomou posse como primeiro Arcebispo Metropolitano de Palmas – TO. Atualmente o 10º Arcebispo Metropolitano de Belém.

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém